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Aos leitores:


Gostaria de informar que, por vários motivos, Seishin Kuroi Gaiden vai ser DESCONTINUADO. Creio que devo tanto a mim como aos leitores e às personagens algo mais do que uma história que não soube estruturar há 3 anos atrás, e por isso mesmo está na altura de seguir em frente.

Isto não significa, no entanto, o fim; é com a maior alegria que anuncio que SKG terá UM NOVO COMEÇO, desde o Capítulo I, e prosseguirá normalmente daí em diante como uma nova história. Os personagens serão os mesmos (com raras excepções/algumas alterações) e praticamente não vou mexer nos meus planos para capítulos futuros, mas podem estar à espera de um início totalmente diferente.

O NOVO BLOG ESTÁ ONLINE! A VERSÃO PORTUGUESA PODE SER ENCONTRADA AQUI.

A todos os que até aqui têm vindo a seguir este blog um grande obrigado, e espero que no futuro continuem a acompanhar esta nova aventura!

A Crónica recomeça...

Posted by Seishin Hermy @ 22:38
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Capítulo XIX: Travessia


Levou uma mão à testa lentamente e sentiu-se zonzo, fraco. Pesavam-lhe as pálpebras, mas aos poucos foi abrindo os olhos. Estava na casa de Luke, reconhecia as paredes sombrias e o quarto apertado quase sem mobília.
-Oh, está a acordar!
Makoto correu a sentar-se num banco junto ao amigo, sorrindo de alívio. Sochin e Ken'ichi não tardaram também a surgir pela ombreira sem porta da divisão. Kuroi sentou-se na cama, surpreso por estarem ali todos reunidos, e tentou dizer algo, mas só lhe ocorreu uma pergunta:
-Quanto tempo é que estive assim?
-Umas duas semanas, talvez mais um par de dias. - Respondeu prontamente o loiro. - Tivemos sorte em o d'Evans ter aparecido...
Recordando-se dos acontecimentos antes de perder os sentidos, o rapaz levantou o olhar em busca do feiticeiro. Este estava de pé, com os braços cruzados e encostado a uma parede um pouco atrás dos outros, e quando reparou que Kuroi o fitava desviou o olhar.
-Tiveram foi sorte de as feridas não o matarem. - Disse, em voz grave, descruzando os braços e avançando um passo. - Seishin, estas duas semanas foram o tempo que tive de te manter sedado. Se te deixasse andar por aí, mesmo sem fazer esforço, a recuperação ia durar no mínimo um mês.
Kuroi acenou com a cabeça em sinal de compreensão.
-Peço desculpa por tudo isto...
-Não peças, quase de certeza que o voltarias a fazer numa situação parecida. - Comentou Luke, revirando os olhos. - De qualquer modo, já deves conseguir andar. Deves ter assuntos para tratar, não? Duas semanas é muito tempo.
Kuroi destapou o resto do corpo com os lençóis e testou se já conseguia apoiar-se antes de se levantar. Tirou o casaco pendurado na cabeceira da cama e vestiu-o, surpreendido por já não sentir nada.
-Para ser franco, vamos agora para Leste, passando por Sayden. Estava a planear pormo-nos a caminho assim que recuperasse.
-Na direcção da Capital?
-Creio que o melhor será  partir o quanto antes. - Disse o rapaz de cabelo castanho, acenando afirmativamente à pergunta de Luke. Olhou depois por uma janela para ter uma ideia do tempo. - Ainda é de manhã. Vamos voltar à estalagem, arrumar aquilo de que precisamos e seguimos depois de comermos alguma coisa.
Acabando de se calçar, Kuroi voltou a agradecer a Luke e ele e os amigos saíram na direcção da estalagem.
-É verdade, Kuroi... - Começou Ken'ichi.
-Que se passa?
-Temos um problema. Quanto dinheiro é que trazíamos para pagar a estalagem, mesmo?
Kuroi levou a mão à testa.
-Não dava nem para uma semana...
-O que é que vamos fazer, então? - Perguntou Makoto.
-Não sei, ainda precisamos de guardar algum dinheiro para comida e estadias até chegarmos a Shinai... Ou, pelo menos, até Sayden...
-Duvido que nos deixem ficar a dever. - Suspirou Sochin. - Por este andar vamos ter de trabalhar para pagar a dívida...
Os quatro entraram na estalagem deprimidos, sem uma palavra. Kuroi subiu as escadas para o primeiro andar, seguido pelos outros. De repente, uma mulher que bordava junto a uma mesinha ao fundo do corredor dos quartos, perto de uma janela, retirou da gaveta da mesinha um envelope e dirigiu-se a ele.
-És tu quem se chama Seishin Kuroi?
O rapaz pestanejou, olhando para a mulher com estranheza. Como é que ela sabia o seu nome? Assentiu.
-Há poucos dias deixaram aqui este envelope para te entregar. Disseram-me que não o desse a mais ninguém, por isso tenho estado à espera que voltasses ao quarto.
O rapaz recebeu nas mãos o envelope, intrigado. Era um embrulho com algum volume e peso.
-Quem?
A mulher encolheu os ombros.
-Não consegui reconhecer quem era, tinha um capuz e estava escuro quando veio cá. Era uma rapariga, acho que não muito alta e não devia ter mais de dezoito anos, pela figura.
O mais velho desviou o olhar na direcção do meio-irmão. Este cravara ligeiramente os dedos no papel do envelope ao ouvir as palavras da criada.
-Sabe para onde é que ela foi, depois?
A única resposta que obtiveram foi um acenar de cabeça negativo.
-Makoto, Sochin, reúnam as vossas coisas. - Disse Kuroi, voltando-se para eles com um tom de desconsolo. - Vou abrir o envelope no quarto, venham ter connosco depois.
Os dois irmãos dirigiram-se ao quarto que partilhavam, enquanto que Kuroi e Ken'ichi caminharam lentamente para o seu, fechando atrás de si a porta.
-O que achas que é? - Perguntou o mais velho.
Kuroi não respondeu. Rasgou cuidadosamente o topo do envelope e despejou o conteúdo sobre a cama feita e abafou uma exclamação. Um saco de moedas, bem aconchegado para não tilintar, rolou sobre a colcha e entreabriu-se. A cobri-lo ligeiramente estava uma folha de papel dobrada em quatro que parecia ter sido respingada em alguns pontos e estava agora seca.
-Dinheiro e uma carta...? - Murmurou. Voltou a juntar as moedas dentro do saco e abriu hesitantemente o papel que vinha junto.
Leu o que estava escrito em voz alta, mas que não se pudesse ouvir no exterior do quarto.

"Kuroi,

Não consigo encontrar uma forma mais adequada para te dizer isto depois do que aconteceu. Sou a única responsável pelo estado em que te encontras enquanto escrevo estas palavras, e talvez não sejas sequer capaz de imaginar o quanto o lamento agora. Não posso apagar o mal que já fiz, mas espero que acredites que quero mudar daqui para a frente. Não posso também voltar para a Terra até encontrar uma forma de silenciar o Edgar, mas tentar sequer seria cobardia. Espero que aceites o dinheiro que te deixo com esta carta. Deve ser suficiente para pagar a vossa estadia até recuperares e para conseguirem fazer a viagem até Sayden. É para lá que vou neste momento, mas peço-te que partas com calma e apenas quando estiveres bem. Tenho de por a cabeça em ordem antes de nos voltarmos a encontrar, mas prometo que a próxima vez será muito diferente das últimas. Para mim, está na hora de acabar com todas estas lutas entre nós.

Até lá,

Mera."

Ken'ichi, que escutara o conteúdo da carta atentamente, fitou o tecto.
-O que é que pensas fazer?
-Não podemos recusar o dinheiro. - Constatou Kuroi com um sorriso triste, levando depois a mão ao antebraço esquerdo, onde a queimadura estava escondida por ligaduras. - E eu sabia que ainda a conhecia bem. Que tudo isto... - Suspirou antes de continuar. - Tudo isto tinha de ter algo por trás. De qualquer forma, ela muito provavelmente vai procurar asilo em Sayden com o Hamed. Talvez ainda a encontremos quando chegarmos lá.
-Hamed...?
Entretanto, Makoto e Sochin bateram à porta. Estavam já carregados com os seus sacos e prontos para partir.
-Como vamos fazer em relação ao dinheiro então, Senpai? - Perguntou o mais novo, entrando pelo quarto.
Ken'ichi apontou-lhe discretamente o saco de moedas em cima da cama. Este arregalou os olhos, surpreendido.
-De onde é que apareceu esse dinheiro?
-Parece que a Mera o deixou num envelope para mim antes de sair da cidade. - Respondeu o Sucessor, tão calmo quanto conseguiu. - Venham, quero seguir viagem antes que fique muito calor. Entre Hodes e Sayden há um trecho de deserto que ainda custa um bocado a atravessar.

***

-Senpai, não estavas com pressa? - Chamou Makoto, colocando a chave do Jipe na ignição. No banco de trás, Ken'ichi espreitava o irmão com curiosidade. Este estava de pé, segurando a porta do carro aberta e olhando para a saída da cidade como se esperasse algo.
-Do que é que estás à espera, maninho? - Perguntou, esboçando um sorriso de gozo.
Kuroi voltou-se novamente para eles, pestanejou e sorriu, embaraçado.
-De nada, estava só distraído a pensar numa coisa! - Disse com desenvoltura, entrando e sentando-se ao lado do mecânico. - Sobe a capota e vamos.
"Não sei muito bem do que é que estava à espera.", pensou para consigo, de braços cruzados e afundando-se de pernas afastadas no banco traseiro. "Mesmo depois de me ter salvo a vida, qualquer um iria perceber que não é o género do d'Evans ir assim despedir-se de um grupo de estranhos. Ainda assim é pena... Ele no fundo parecia ser boa pessoa apesar do feitio, era interessante voltar a encontrá-lo um dia destes."
Seguiram viagem. Ao passarem pelo pequeno bosque onde haviam treinado duas semanas antes, Kuroi não conseguiu evitar um sorriso e Makoto um calafrio. Poucos minutos depois, as árvores começaram a aparecer com menos frequência até chegarem a deserto aberto.
Mesmo com a capota do jipe colocada, o calor fazia-se sentir de forma cada vez mais insuportável. Após cerca de uma hora de viagem, ouviu-se um ruído vindo do motor. Makoto travou imediatamente o carro, alarmado.
-Que barulho foi este? - Perguntou Sochin, virando-se para o irmão que abría a porta do seu lado para verificar o que se passava.
-É o que vou tentar perceber agora, mas tenho um mau pressentimento...
-Makoto, apanha. - Disse Kuroi, atirando-lhe para as mãos o seu chapéu, que tirara do bolso. - Não é boa ideia sair do carro com a cabeça a descoberto.
Makoto assentiu e colocou o chapéu antes de sair do carro. Ao abrir o capot, confirmou as suas suspeitas.
-O motor ficou sem água? - Arriscou Ken'ichi, debruçando-se sobre um dos bancos da frente.
-Parece que não tinha suficiente e o calor evaporou quase toda a que havia. - Respondeu o loiro, suspirando. - Não vai dar bom resultado se continuarmos a andar com este calor, mais um pouco e sobreaquece.
-A água que trouxemos para beber durante a viagem não serve... É muito pouca, morreríamos à sede se a gastássemos no motor... - Constatou o rapaz de cabelo castanho, tentando pensar numa solução.
-E não estaríamos em muito melhores condições se fôssemos buscar mais água a Hodes a pé. Acho que só nos resta esperar que anoiteça e então voltar, as noites no deserto são por norma bastante frias e o carro deve conseguir andar. - Respondeu o mais novo. - Ken'ichi-san, o que dizes?
Ken'ichi assentiu.
-Em princípio não deve haver problema em voltar durante a noite, mas é realmente aborrecido esperar aqui até que anoiteça... Bem, não temos escolha. Vamos ter de acampar dentro do carro até escurecer.
Os mais novos acenaram, desconsolados. Kuroi não era muito afectado pelo calor, mas também não se sentia satisfeito com a ideia.

***

Apenas uma hora havia passado, e os quatro já se sentiam incapazes de suportar o calor.
-Quanto mais tempo é que vamos ter de aguentar aqui? - Perguntou Makoto, limpando da testa o suor com o antebraço. - Isto é mais duro do que eu imaginei...
Kuroi ergueu a cabeça sobre os braços cruzados, fitando o horizonte que haviam deixado para trás. Acima das dunas parecia levantar-se uma brisa quente, e com ela uma fina nuvem de areia.
De repente, pestanejou para ter a certeza de que os seus olhos não o enganavam. Um vulto envolto numa capa, vindo também ele da direcção de Hodes, surgiu por entre as dunas e aproximava-se deles num passo relativamente apressado.
-Hey, vocês também estão a ver, ali ao fundo...?
-Uma pessoa a pé, no meio deste deserto?! Como é possível? - Perguntou Ken'ichi, estupefacto.
A pouco e pouco, a figura tornou-se mais perceptível à medida que se aproximava do carro. Kuroi reconheceu de imediato a capa negra com o capuz colocado, o brasão sobre o ombro direito e o bastão em forma de lança que carregava às costas.
-D'Evans!! - Exclamou, abrindo a porta do seu lado e saindo do carro sem se importar com o calor. - O que é que estás aqui a fazer?
Luke ergueu uma mão para indicar que o ouvira, mas seguiu em silêncio até junto do carro.
-O que é que estão a fazer aqui parados? Este sítio não é o mais agradável para banhos de sol. - Perguntou, juntando-se a eles.
-Ficámos sem água, estávamos à espera do anoitecer para voltar a Hodes. - Respondeu Ken'ichi do banco de trás, com um ar enfadado.
-E tu, o que é que estás a fazer a pé pelo deserto? - Perguntou Kuroi, ainda surpreso.
-Eu? Tive a sensação de que algo do género vos ia acontecer mais tarde ou mais cedo. - Respondeu o feiticeiro, desviando o olhar com o habitual desinteresse e cruzando os braços. - Além disso, tenho uns assuntos para resolver fora da cidade, e vocês vão na mesma direcção que eu. Nada de urgente, mas como não acho que um grupo como vocês possa sobreviver muito tempo sem a ajuda de um especialista em cura decidi tentar apanhar-vos.
-Mas que...! - Exclamou Makoto, furioso, antes de a irmã o agarrar pela manga da camisa e o puxar de volta para o banco.
-Nii-chan...
-Bem, parece que nos apanhaste em má altura... - Disse Kuroi, tentando ignorar a forma de ser de Luke. - Como vês, não podemos seguir viagem.
-Se o vosso problema é água, o meu cantil deve chegar para esse bicho estranho em que vocês viajam. - Respondeu o outro, tirando de uma mala à tiracole um cantil de tamanho considerável e entregando-o ao rapaz de cabelo castanho. -Eu posso convocar toda a água de que precise em troca de alguma energia, por isso não me faz grande diferença.
-Nem sei como agradecer, sem isto tínhamos de ficar aqui até de noite... - Começou Kuroi, parando abruptamente ao ver Luke seguir caminho a pé com as mãos enfiadas nos bolsos, indiferente. - Hey, onde é que vais?!
-Guarda os agradecimentos para quem precisa deles, Seishin. Eu vou seguir viagem por mim.
-Porque é que não vens connosco? Com o carro a funcionar chegamos pouco depois de anoitecer! - Sugeriu Ken'ichi, levantando-se para ajudar Kuroi a colocar a água no motor.
-Porque o facto de eu ir na mesma direcção do vosso grupo e de poder ajudar-vos não significa que me vá juntar a vocês. Os nossos objectivos são diferentes. - Respondeu o rapaz de cabelo azul-escuro, seguindo o seu caminho sem hesitação.
Makoto suspirou.
-Se é assim, vamos. Já perdemos tempo de sobra neste deserto.
Kuroi assentiu, disfarçando também ele um suspiro.
Os quatro retomaram os seus lugares no carro e seguiram viagem, desejosos de chegar a um local mais fresco.
-De certeza que ele vai ficar bem? - Desabafou Sochin, deitando a cabeça em cima dos braços sobre o tablier.
-Não te preocupes. - Respondeu Makoto. - Ele tem toda a água que quiser e uma arma ainda mais importante, a teimosia.
Kuroi abafou um riso ao ouvir o amigo.
-Ainda assim, há limites até para se ser cabeça-dura... - Constatou Ken'ichi. - Nem faço ideia de quanto tempo ele vai demorar a alcançar-nos outra vez...
-Hey, Makoto... - Chamou-o Kuroi, pensativo. - Ainda não avançámos muito, talvez não faça mal se...
O rapaz assentiu, percebendo o que o amigo lhe quis dizer, e travou o carro.
A brisa continuou a erguer-se e, com ela, a areia leve. Muito lentamente, o rasto dos pneus do carro começava a esbater-se atrás deles. Cerca de 20 minutos passaram até que voltaram a avistar o vulto do feiticeiro por entre as dunas, aproximando-se deles.
-Outra vez encalhados? - Perguntou, ao chegar mais próximo do grupo.
Makoto acenou negativamente com a cabeça.
-Estou farto de conduzir com alguém a pé atrás de mim. Se insistes assim tanto em ir a pé, força. Mas nós não vamos voltar a passar à frente!
-Como queiram. Vemo-nos em Sayden.
E mais uma vez o rapaz seguiu, aparentemente indiferente, voltando-lhes as costas.
O loiro recostou-se no banco do condutor e cruzou os braços, vendo-o continuar o seu caminho à medida que o vento se tornava mais forte.
Pouco mais de 150 metros adiante, Luke estacou e voltou-se para trás, com uma expressão contrariada estampada no rosto, e suspirou profundamente antes de gritar:
-ESTÁ BEM, EU VOU COM VOCÊS!!

***

Ao cair da noite, o clima pesado que se instalara entre todos desde que Luke se juntara ao grupo dera de novo lugar ao ambiente mais descontraído que tinham conseguido criar com todo o calor que sentiam. Este, apesar de calado a maior parte do tempo, lançava por vezes um olhar em resposta ou uma frase vaga. Foi apenas quando as luzes do interior de uma enorme muralha rodeada por tendas de vários tamanhos se começaram a avistar no horizonte que, sentindo-se mais à vontade, tentou um princípio de conversa.
-Ainda não percebi algo...
Kuroi, que se apertara com Ken'ichi no banco de trás para caber mais um, sobressaltou-se sem tempo para disfarçar a surpresa ao ouvi-lo falar tão de repente e sem ser interpelado.
-O quê? - Perguntou Ken'ichi, tentando dar tempo ao irmão de se recompor da surpresa.
-Afinal... Que raio de animal é este "carro" em que estamos montados? Rosna enquanto caminha, abre a boca quando lhe mandam e tem uma carapaça que parece de metal mas as costas parecem bancos... Nunca vi nada parecido, é alguma espécie da Terra?
Makoto e Sochin, nos bancos da frente, rebentaram a rir ao ouvir estas palavras, e o rapaz teve de se conter para não perder o controlo da direcção.
-O que foi? Disse algo assim tão engraçado? - Reclamou o feiticeiro, irritado com a reacção de ambos.
-Uh, d'Evans... - Disse Kuroi, tentando não perder tanto a compostura como os dois irmãos mas achando piada à situação. - Na verdade, um carro é uma máquina. É construído por humanos para viagens de longa distância e o barulho que parece um animal a rosnar vem do motor. É bastante estranho, eu sei, mas não é nenhum animal.
-É verdade, Kuroi, não me contaste quando éramos miúdos que reagiste de forma parecida quando viste um automóvel pela primeira vez? - Perguntou Ken'ichi com um sorriso de troça, recostando-se no seu banco com os braços atrás da cabeça.
-Tinhas de te lembrar disso, Ken! - Respondeu o rapaz de cabelo castanho, sorrindo embaraçado. - Foi quando tinha acabado de chegar à Terra e ainda estava um pouco perdido com tudo...
-Heh, pergunto-me se haverá aqui em Dreffel alguma coisa inesperada para um humano! Além de pessoas com um aspecto invulgar e poderes mágicos, é claro.
Sochin acenou, entusiasmada.
-Vocês vieram de Kyrial, certo? - Perguntou Luke. - Então ainda têm muito que ver só nesta Nação. Os lugares onde estiveram até agora não passam de periferia!
Kuroi concordou.
-Sayden é uma cidade relativamente isolada devido ao caminho que é preciso fazer para lá chegar, mas vai ter bem mais para ver do que Kyrial e Hodes. Só aqui vim uma vez e não consegui visitar a cidade toda, mas com um pouco de sorte acho que sei quem nos pode ajudar por estes lados!
-E já conheces mais deste sítio do que eu. - Acrescentou o rapaz de cabelo azul-escuro. - Já viajei um pouco por toda a Nação de Suderion, mas passei por outro caminho antes de me instalar em Hodes.
-Então não és de lá? - Perguntou Kuroi, curioso.
Luke acenou negativamente com a cabeça.
-Não nasci neste país.
Antes que pudessem perguntar mais alguma coisa, Makoto parou o jipe junto às muralhas da cidade.
-Senpai, como fazemos agora?
-O melhor será deixar o carro aqui, talvez. - Respondeu o Sucessor. - É tarde, mas se bem me lembro esta cidade tem um templo activo cujos guardiães dão assistência a viajantes. Com um pouco de sorte, pode ser que eles tenham um sítio onde possamos passar a noite.
-Wow, está a arrefecer. - Disse Ken'ichi, tomando de repente consciência do quanto a temperatura havia mudado com o anoitecer. - É melhor irmos tratar disso rapidamente.
Os cinco saíram do carro e caminharam até ao interior da muralha. A vista do interior da cidade era impressionante; ruas largas e estreitas delineadas por fileiras de casas de pedra branca talhada entrecruzavam-se em redor de um oásis, ao fundo, contornado por uma escadaria em pedra. Ao longo dessa escadaria estendiam-se tochas que iluminavam o caminho até ao edifício que se erguia por detrás do oásis, de aspecto antigo, que aparentava ser a construção mais alta de Sayden. Tinha uma portada maior ao centro que dava acesso ao interior, também ele aparentemente iluminado por tochas, e duas portas de madeira mais pequenas dos lados que pareciam dar para uma espécie de anexos.
-AQUILO é o templo? - Perguntou Makoto, surpreendido.
-É incrível! - Comentou Sochin com um sorriso. - Uma cidade assim em pleno deserto...
Seguiram pela escadaria direita acima até chegarem à entrada principal. Entrando à cabeça do grupo, Kuroi olhou em redor em busca de sinais dos guardiães.
O templo parecia ainda maior visto de dentro, com arcadas altas de ambos os lados. Ao fundo, no interior de uma redoma brilhante que os cinco deduziram ter uma protecção mágica em volta, repousava sobre um pedestal decorado um pequeno baú de aspecto antigo. O chão em volta da redoma estava repleto de inscrições circulares em dreffeliano arcaico.
-Alto!! O que estão a fazer aqui? O santuário está interdito a forasteiros durante a noite! - Exclamou uma voz vinda de uma das alas laterais.
Voltaram-se para ver de onde vinha a voz. Junto a uma das arcadas encontrava-se um homem ainda novo, com pouco mais de vinte anos, cabelo curto laranja e olhos acinzentados. Sobre as maçãs do rosto e o nariz tinha uma marca esverdeada na pele, que se repetia nas mãos e nos tornozelos. Usava uma túnica branca comprida e larga amarrada à cintura com uma faixa carmesim e tinha os pés descalços sobre o frio chão de pedra do templo. A sua expressão era austera.
-Somos viajantes. - Respondeu Kuroi com desenvoltura. - Viemos desde Hodes e queríamos pedir a autorização dos guardiães para pernoitar no templo.
-Um grupo de humanos e um dreffeliano...? - Observou o jovem guardião. - Terei de ir consultar a nossa Mestre sobre isto. Duvido que vos seja permitido ficar.
-Não será necessário, Irmão Samal. Eu estou aqui. - Disse uma mulher idosa, com as mesmas vestes brancas que o jovem mas adornadas a fio de ouro, que caminhava lentamente vinda da arcada atrás dele apoiada num desgastado bastão de madeira. O seu cabelo grisalho estava apanhado atrás da cabeça por um adorno, também ele de ouro, e tinha no rosto um sorriso gentil.
-Mestre...! - Exclamou o guardião, surpreso. - Perdoe-me, não senti a sua presença.
A Mestre apaziguou-o com um gesto da sua mão trémula e dirigiu-se ao grupo.
-É um pouco repentino, mas teremos sempre um lugar para acolher viajantes de qualquer origem. - Depois, voltando-se para Kuroi, baixou a cabeça perante ele. - Será uma honra tê-lo a pernoitar entre nós, Kuroi-dono.
Kuroi estremeceu, sentindo-se impelido a recuar um passo.
-C-como é que sabe quem eu sou? Por favor, levante a cabeça! - Disse o rapaz, sem saber como reagir.
A idosa assentiu com o mesmo sorriso gentil.
-É impossível esconder uma energia tão grande de quem lida com ela há mais de um século.
-Ainda assim, por favor... prefiro ser tratado como um visitante normal....
-Assim seja. - Respondeu a Mestre. - Sinto que todos vocês são pessoas de bem. Devem estar cansados, vou mandar preparar-vos quartos. Amanhã, de dia, poderão visitar o templo com um dos nossos Irmãos.
Em menos de meia hora, tudo estava pronto a recebê-los por essa noite. Kuroi, tendo pela primeira vez em muito tempo um quarto só para si, debruçou-se no parapeito da janela e ficou algum tempo a fitar a maravilhosa paisagem nocturna de Sayden. Ainda se sentia um pouco nervoso por ter sido reconhecido tão facilmente como um dos Sucessores, mas calculou que o facto de ser recebido com honras pelos guardiães significasse que Tyfar sabia do regresso dos Sucessores e não lhe desejava impôr obstáculos.
Viu uma ave cortar os céus na sua direcção e logo estendeu o braço para a receber.
-Almoço! - Exclamou baixinho, com um sorriso. - Estava a começar a perguntar-me o que era feito de ti.
O falcão, que os seguira em vôo distante desde Hodes, piou baixinho, como se percebesse que não devia fazer barulho naquele local, e deslocou-se do braço de Kuroi para o parapeito. O rapaz fechou as portadas da janela, lançou um último olhar à cidade adormecida e caminhou lentamente na direcção da cama de lençóis brancos que o esperava, com todos os pensamentos no dia seguinte.

Posted by Seishin Hermy @ 18:03
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Capítulo XVIII: Lágrimas de uma Rosa


-Cortar à esquerda na casa de pedra com telhado de colmo...
Makoto desviou os olhos do pedaço de papel para o espaço em seu redor. A frase que acabara de ler parecia simples e fácil de seguir, mas rapidamente se apercebeu de que todas as casas eram de pedra e tinham telhados cobertos de colmo.
"Ele é ainda pior a dar direcções do que a segui-las...", pensou para consigo enquanto erguia os olhos para o céu azul acima de si com um suspiro de resignação.
Seguindo caminho pela movimentada praça numa tentativa de espreitar pelas ruas secundárias em busca de algum ponto de referência, decidiu pedir direcções a algum dos transeuntes. Interpelou primeiro uma velha comerciante que vendia vegetais numa tenda improvisada, tentou depois um homem de feições duras e marcadas que descansava junto a uma pilha de caixotes de madeira, passou para um grupo de crianças que brincavam ali perto, mas não obteve como resposta mais do que meros revirares de olhos, exclamações de indignação, virares de cabeça e ocasionais gestos com a mão junto à testa que punham em questão a sua sanidade mental.
Quis acreditar que se tratasse de alguma diferença cultural que ainda não era capaz de perceber, mas a verdade é que ninguém lhe estava a prestar o mínimo auxílio e começava a sentir-se cansado. Decidiu sentar-se no passeio para retemperar as forças, encostado à parede mal caiada de uma das poucas casas novas, de tijolo, que se viam no centro de Hodes.
-Estás perdido, rapaz? - Perguntou do seu lado esquerdo uma voz rouca e tremida que não conhecia.
Makoto sentiu um arrepio na espinha e não pôde evitar um pequeno salto no lugar quando se voltou e viu um idoso, de pele extremamente enrugada com um tom que pendia para o azul e marcas irregulares de um estranho rosa-pêssego, envergando vestes pobres de camponês em tons berrantes e encimado por um chapéu de palha meio desfeito na aba, que sorria para ele por detrás de uma longa e farta barba grisalha.
-Esse é o meu cantinho para apanhar sol, mas sei sempre apreciar alguma companhia. - Prosseguiu o velho, ignorando a expressão ainda surpresa do loiro e sentando-se a escassos centímetros dele.
-P-peço desculpa, não o tinha visto chegar! - Explicou-se o jovem, acalmando-se finalmente. Depois, imaginando que não poderia fazer mal perguntar a mais uma pessoa, perguntou no seu tom mais delicado se fazia alguma ideia sobre em qual das ruas secundárias vivia o médico da cidade. Para dar ênfase a todo o seu desespero, depositou de forma dramática no regaço do velho o papel escrito na caligrafia caótica de Kuroi onde estavam as indicações.
-Ler foi arte que nunca aprendi, - Riu-se o velho ao ver o bilhete - mas se estás à procura do jovem Luke só tens de cortar para aquela rua mais escondida.
Apontou na direcção de uma ruela de aspecto meio abandonado a poucos metros do ponto onde se encontravam.
-Segue por ali e deves encontrar facilmente a casa; é a única que ainda tem porta.
Makoto pestanejou por uns segundos, olhando estupefacto. Não só não notara aquele local por entre as casas que ladeavam a praça, achava também deprimente que alguém vivesse precisamente no extremo mais afastado do centro da cidade numa rua em que todas as casas estavam abandonadas, e começou a compreender que talvez houvesse algo por detrás da renitência dos locais em falar sobre o misterioso curandeiro.
-Muito obrigado, ojii-san! - Agradeceu, levantando-se com os olhos pregados na rua para não a voltar a perder de vista no meio das casas. - Peço desculpa por me ir embora tão abruptamente, mas estou com alguma pressa!
Dito isto largou a correr, voltando-se para trás apenas para acenar em jeito de novo agradecimento.
-Ah!, a juventude destes dias... Sempre a correr... - Suspirou o velho com um sorriso.
À medida que penetrava na rua, Makoto sentia um ligeiro desconforto. Era um lugar estranhamente sossegado, sem mais movimento visível que o dos pequenos pássaros que debicavam o passeio, e que Makoto concluiu serem de uma espécie que não existia na Terra.
Chegado, finalmente, à última casa da rua, que pelos vistos terminava em cruzamento com uma avenida secundária que atravessava a cidade, hesitou por uns segundos antes de bater à porta. Esta, já meio solta nos eixos e destrancada, abriu-se à primeira batida com um estalido de metal seguido de um ranger ligeiro.
-Com licença...! - Exclamou, sem qualquer resposta. Empurrou então o resto da porta e deu dois passos em frente para o interior.
-Eu não dei licença nenhuma. Quem diabos és tu? - Interrompeu-o uma voz ríspida vinda das suas costas, que lhe deu a sensação de que ninguém conseguia interpelá-lo pela frente nesse dia.
Voltou-se a tempo de ver, sentado a uma secretária junto à tímida janela por onde escorria a luz para o interior, um rapaz alguns anos mais velho com um ar pouco amistoso. O seu cabelo era azul quase negro, um pouco comprido e penteado para o lado, e os olhos, de um violeta frio, pareciam trespassá-lo com hostilidade contida. Parecia ter interrompido a sua tarefa de escrever com invejável alinhamento (para sua admiração, em caracteres romanos) num rolo de pergaminho novo com uma pena mergulhada em tinta que agora respingava para a margem.
-Eu perguntei se podia entrar, como ninguém me resp...
-"Quem cala, consente"? Não vais ser tu a ensinar-me essa frase, mas não penses que podes aplicá-la fora do teu mundo quando te apetece. - Cortou o jovem em tom grave, levantando-se e apontando a Makoto um dedo acusador. - Quem és tu, afinal?
O loiro, ainda surpreendido pelo aparente conhecimento da cultura e escrita humanas que o outro, indubitavelmente um dreffeliano, parecia possuir, preparava-se para se explicar quando foi novamente interrompido. Desta feita, era uma voz bem sua conhecida que o fez respirar de alívio.
-Calma, d'Evans. Ele está comigo. - Apaziguou Kuroi, vindo de um dos quartos enquanto acabava de vestir o casaco de sarja preta sobre a t-shirt vermelha, com um sorriso de embaraço. Dirigiu-se então ao mais novo:
-E tu, chegaste cá bastante depressa! Com as instruções que te tinha dado, estava à espera de ter pelo menos mais meia hora para avisar o d'Evans que vinhas aí.
O rapaz conteve no seu interior um misto de indignação e resignação a que já se habituara desde que conhecia Kuroi. "Devia ter imaginado que era mais um dos testes dele", pensou. Olhou então para o anfitrião, que ainda não se voltara a sentar mas parecia ter abandonado alguma da hostilidade do seu olhar inicial, aparentando agora estar meio aturdido pela presença de tantas pessoas na entrada da sua casa, que calculou não ser algo muito habitual.
-Makoto, este é o médico de quem te falei. - Disse Kuroi, acenando para o dreffeliano numa tentativa de quebrar o silêncio.
-Kime Makoto, prazer em conhecer-te. - Disse o mais novo por mera formalidade, estendendo a mão esquerda na direcção do outro e trocando depois para a direita ao aperceber-se da sua distracção.
-Luke d'Evans. E não sou médico, sou feiticeiro. - Respondeu este sem olhar e ignorando qualquer uma das mãos que o rapaz lhe estendia, debruçado sobre a secretária para acabar as suas notas e rasgando do pergaminho um canto com algo escrito em letra apertada que se apressou a entregar a Kuroi.
-Estão aqui assentes os ingredientes para a infusão de tratamento. Quando os tiveres passa por aqui para podermos concluir a remoção da energia vestigial. Deves conseguir comprá-los facilmente a uns quarteirões daqui, mas tem cuidado com a velha Zirka. Aquela coruja decadente gosta de enganar os forasteiros quanto aos preços, e é especialmente desonesta com humanos.
-Mas eu não sou humano. - Argumentou Kuroi com um ligeiro tom de ofensa tomada.
-Mas ela vai achar que és. - Respondeu Luke, olhando-o com desinteresse. - Em qualquer caso, é tudo.
Com um simples aceno, os dois rapazes saíram da pequena casa de pedra e cortaram para a avenida, no sentido da saída da cidade.
-Não é muito amável. - Sussurrou Makoto para Kuroi, enterrando as mãos nos bolsos das jardineiras.
-Tem um feitio muito peculiar, tenho de admitir. - Respondeu este. - Mas não é má pessoa. É normal que acabe por se descuidar um pouco com os modos, vivendo aqui isolado não deve conviver com muita gente...
-E, pela forma como as pessoas reagiram quando tentei perguntar por ele, diria que quando tenta fazê-lo a coisa não corre bem.
Kuroi encolheu os ombros e apressou o passo em direcção à saída da cidade, diante da qual se estendia um caminho de terra batida que entrava por um bosque denso e irregular por onde a luz parecia não ter passagem. O mais novo deu alguns passos em corrida para o apanhar.
Seguindo pelo caminho, pouco antes de o mato adensar, chegaram junto a uma árvore de porte impressionante. Tapando o sol dos olhos com uma mão, o mais velho olhou-a desde a base até ao topo e sorriu, satisfeito.
-É perfeita. - Disse, voltando-se para o amigo. - Espera por mim aqui um segundo, OK?
Despindo o casaco de cima da t-shirt, lançou-se ao tronco e começou a subir com desembaraço, deixando atrás de si um Makoto indignado.
Poucos minutos depois parava junto a um ramo espesso para respirar fundo.
-Mas o que raios estás a fazer? - Perguntou o loiro, olhando para cima.
Kuroi, ignorando-o, esticou-se pelo ramo até chegar a um ninho cheio de ovos enormes, salpicados de pequenas manchas azuladas. Tirou um ovo com cuidado, segurou-o debaixo do braço e lançou-se de costas do cimo do ramo.
Makoto susteve a respiração por um segundo ao vê-lo cair mas logo suspirou, ainda trémulo, quando este aterrou perfeitamente sobre as duas pernas dobradas e a mão livre, segurando ainda o ovo na outra.
-N-não voltes a fazer isso! - Gritou-lhe, correndo na sua direcção. - Pode ser perfeitamente seguro para ti, mas assusta!
Kuroi riu-se da expressão atarantada do amigo.
-Hai, hai, desculpa! Era a maneira mais rápida de descer. De qualquer forma, viste por onde subi e onde estava o ninho?
Makoto passou novamente os olhos pela árvore e acenou afirmativamente com a cabeça.
-Mas não acho bem andar a roubar ovos, sejam do que forem. - Comentou com voz baixa.
-Oh, não te preocupes. - Respondeu o rapaz de cabelo castanho, passando-lhe o grande ovo para os braços com um sorriso. - A tua tarefa vai ser pô-lo de volta no sítio.
-O QUÊ?!
Makoto fitou, ainda uma outra vez, a grande árvore com desconsolo. "Nunca vou conseguir trepar àquilo com um ovo na mão!", pensou.
-Não te preocupes, - Disse-lhe o amigo, como que adivinhando os seus pensamentos - Não tens de levá-lo na mão. A única utilidade dele é servir de peso extra.
-Como é que ISSO é suposto reconfortar-me? - Respondeu em tom irónico. - Já subi a algumas árvores quando era pequeno, mas isto é...
Suspirou, sabia que argumentar não serviria de nada e que estava ali por sua vontade.
-Posso voltar à cidade para ir buscar algo?
-À vontade! - Respondeu Kuroi, encolhendo os ombros inocentemente e sentando-se no chão de terra com as pernas cruzadas. - Eu espero.
Minutos depois o loiro regressava, com um lençol enrolado sobre um ombro.
-Depois vou ter de o ir devolver, mas por agora serve. - Disse, dobrando-o  em forma de saco. Amarrou-o à tiracole e colocou o ovo cuidadosamente nas suas costas. - Já agora, o que é suposto este treino fazer?
-A primeira coisa que precisas de desenvolver é a força superior. Não vou insistir muito nela porque acho que tens outros pontos fortes a trabalhar, mas não servem de nada se não conseguires imobilizar ou atingir um adversário. Escalar uma árvore destas é um bom exercício para isso, e também desenvolve uma boa quantidade de destreza, portanto...
Makoto assentiu e voltou-se para a grande árvore.
-De qualquer maneira, alguém teria de voltar a pôr o ovo lá em cima.
Procurou um primeiro ramo para se segurar e começou a subir. Apesar de cansativo, não era assim tão difícil como parecera à primeira vista.
Rapidamente chegou a meio da árvore e segurou-se com mais firmeza para recuperar o fôlego. Sentiu então, de repente, que algo nas suas costas se mexia e ouviu o som de algo a estalar.
-Está a eclodir! - Exclamou Kuroi, de certa forma divertido com a situação.
Makoto voltou a cabeça para trás a tempo de ver sair, do lençol que trazia amarrado às costas, uma cria de pássaro de olhos gigantescos e bico pequeno, extremamente feia e ainda recoberta dos líquidos do ovo, que encostou a cabeça a si carinhosamente.
-Oh, não... - Disse o rapaz com voz trémula, olhando entre o recém-nascido e o chão e incapaz de se mover mais um milímetro. - Não sei se tenho mais medo da altura em que estamos, ou de esta coisinha pensar que sou a mãe...

***

As horas passaram. Kuroi regressava à cidade sob um céu cinzento que se pusera desde o início da tarde, procurando o local onde Luke dissera que podiam comprar os ingredientes para a infusão. O mais novo caminhava lentamente atrás de si com o corpo cheio de bicadas de ave pequena, arranhões de ave adulta, algumas nódoas negras nos braços e os ouvidos a estalar do sermão que ouvira de uma dona de casa ao devolver o lençol cheio de líquidos de ovo.
Cruzaram-se, inesperadamente, com Sochin e Ken'ichi, que se juntaram a eles a correr.
-Já íamos à vossa procura! Então, o treino foi duro? - Troçou o mecânico, dando uma palmada forte nas costas de Makoto.
-Está quieto, tenho o corpo todo dorido! - Reclamou este, suspirando.
-O que é que vocês andaram a fazer? - Perguntou a rapariga, olhando para os arranhões do irmão.
-Eu mandei-o apenas escalar uma árvore. Ele decidiu também lutar com bestas selvagens. - Respondeu Kuroi, encolhendo os ombros, enquanto o grupo se aproximava da banca de Zirka, a comerciante de plantas.
Sochin abraçou-se com força ao irmão, fazendo-lhe ainda mais dores.
-Onii-chan! - Disse, arrastando a voz de propósito. - Tem mais cuidado contigo!
-Sim, Sochin, e tu tem cuidado comigo também... - Gemeu o irmão mais velho, afectando uma exagerada expressão de sofrimento.
Kuroi deu um passo em frente, debruçando-se sobre a banca e quase não dando tempo para o resto do grupo se aperceber de que tinha parado. Do sítio em que estavam não conseguiam ver muito bem a figura da velha comerciante nem ouvir o que diziam, mas poucos segundos depois o rapaz juntava-se de novo a eles com uma expressão de satisfação estranhamente inquietante.
-Tão rápido... quanto é que te custou esse saco de ingredientes? - Perguntou Makoto, afastando lentamente o braço da irmã mais nova dos seus ombros doridos.
-Foi por conta da casa! - Respondeu o rapaz de cabelo castanho, voltando-se para o amigo com o mesmo sorriso.
O mais novo sentiu um pequeno arrepio espinha acima e decidiu não tentar imaginar o que se teria passado durante aquele curto espaço de tempo.
No céu, as nuvens adensavam-se. Os quatro amigos seguiram caminho, distraídos.
"Não podia ser uma melhor oportunidade... Todos reunidos, rodeados apenas de civis e totalmente indefesos..."
Um vulto deslizou silenciosamente ao longo da sombra de uma casa. Na escuridão do final de tarde cinzento, apenas os grandes olhos felinos, da cor do âmbar, tremeluziam com o nervosismo.
-Gomen... ne... - Soou lentamente, de forma quase inaudível, a sua voz quente e melancólica.
Prosseguiu, invisível por entre a multidão, colocando sobre a cabeça um capuz de tecido etéreo, suave que lhe escondia o rosto e as formas.
O grupo continuava a avançar lentamente. Estavam agora em silêncio, cansados.
O badalar de um sino afastado do local onde se encontravam, intenso, soou seis vezes como se de uma povoação cristã na Terra se tratasse. Abafou uma exclamação admirada vinda detrás, sensivelmente do meio de Sochin e Ken'ichi.
Kuroi voltou-se imediatamente, pressentindo que algo não estava bem. Makoto estava demasiado exausto para proferir qualquer som, a menos que...
-Há quanto tempo, Mera.
A rapariga de cabelos negros removeu o capuz com a mão livre, prendendo com o outro braço o pescoço do mais novo, que tentava debater-se com o resto das suas forças. Fitou o outro Sucessor com deleite e nos seus olhos côr do âmbar pareceu iluminar-se uma centelha.
-Surpreende-te veres-me aqui? Estou decepcionada. Nunca pensei que baixasses a guarda com tanta facilidade, Kuro-chan...
Kuroi sentiu um duplo arrepio percorrê-lo de baixo para cima. Estava realmente vulnerável, com o corpo ainda impossibilitado de se submeter à carga que era o seu poder. Com Ken'ichi desarmado e Makoto no limite das suas forças, não havia nada que impedisse Mera de cumprir finalmente o seu objectivo. Mas, e sentiu-se ridículo por isso nesse momento, enervava-o também que alguém o tratasse por "Kuro-chan".
-Larga-o. O teu problema é comigo, certo? - Disse pausadamente, com tanta calma quanta conseguiu encontrar dentro de si. Mera aliviou a pressão no pescoço de Makoto, permitindo-lhe soltar-se.
-Oh, estás a propor um combate de um-para-um? Muito corajoso da tua parte... Especialmente vendo como estás quase tão desprotegido como qualquer um dos humanos à tua volta...
O tom de voz sarcástico da rapariga fê-lo estremecer por momentos. Sabia que as suas probabilidades de a vencer naquelas condições eram quase nulas, mas não havia opção. Tinha de tentar.
-Kuroi, espera! Não podes lutar nesse estado! - Exclamou Ken'ichi, colocando-se em frente aos dois irmãos como que a protegê-los. - Ela é uma Sucessora!
O rapaz de cabelo castanho cerrou os punhos junto às ancas e baixou a cabeça.
-Nem vocês. Saiam daqui enquanto têm tempo.
Os outros três não se moveram um centímetro. Makoto sentia-se inútil, impotente perante aquela situação. Não passava de um miúdo, um mero humano que seguira até ali alguém que tanto admirava. Não suportava a ideia de ver Kuroi sucumbir às mãos da assassina sem poder agir, que parecia aproximar-se dele demasiado depressa.
-A vossa preocupação comove-me. - Disse a rapariga, assumindo uma postura erecta e rígida e fazendo surgir no chão à sua volta uma circunferência de chamas baixas. Deste saiu outra linha na direcção de Kuroi a uma velocidade quase impossível de seguir com o olhar que explodiu ao chegar junto dele, mal lhe dando tempo para se desviar.
-Não tentes tornar isto ainda mais lento. Batalhas longas contra um Sucessor sem poderes são simplesmente tediosas.
Kuroi rangeu os dentes e fitou Mera, concentrando-se por um momento. Quando uma segunda explosão alcançou o chão debaixo de si, já o seu corpo tinha desaparecido no ar e reaparecido atrás da jovem.
-Quem te disse que eu estava sem poderes?!
Lançou um soco na sua direcção, concentrando nele toda a sua força. Mera só teve tempo de se voltar, segurar no punho do rapaz e repelir o próprio corpo com os braços antes de este a afastar também com o impulso, forçando-a a inclinar-se para a frente para não perder o equilíbrio.
-Se ele continuar assim pode não vir a recuperar... - Gemeu Sochin, trincando o lábio inferior e abraçando-se com mais força ao braço de Makoto. O seu irmão estava bem consciente de que Kuroi estava a ir para além do limite que o seu corpo ainda mal sarado lhe permitia. Ken'ichi, porém, era o mais nervoso dos três. Cerrava um punho com toda a força, impedido de sacar do revólver que deixara na estalagem, e desejava entrar na luta e ajudar o meio-irmão.
-Não podemos fazer nada. - Disse, enervado, para os mais novos e para si próprio. - Se nos metêssemos só iríamos piorar a situação e atrapalhar...
A rua começara a ficar deserta aos primeiros sinais da luta. Assustadas, as pessoas correram para as suas casas e só uma janela ou outra permanecia entreaberta, revelando olhares de temor ou ansiedade.
Kuroi voltou a preparar-se para atacar, apostando tudo em terminar rapidamente a luta antes que começasse a sentir as suas feridas a reabrir por dentro. Quando isso acontecesse, estaria perdido. Correu, decicido, contra Mera, saltando e lançando contra ela um pontapé à cabeça. A rapariga bloqueou o ataque com os antebraços como pôde, fazendo neles surgir labaredas antes de tombar com a força do golpe absorvido. Kuroi caíra cerca de um metro atrás de si, sentindo uma queimadura tomar-lhe conta da perna direita, e quase incapaz de erguer o tronco com os braços para se levantar. Estava a começar a perder as forças.
Mera levantou-se rapidamente, respirando fundo e olhando para o rapaz caído no chão com uma mistura de expectativa e nervosismo.
Esticou à sua frente as mãos, meio trémula, e começou a proferir uma espécie de encantamento à medida que uma esfera alaranjada muito brilhante se formava mas palmas. Esta crescia, aumentava de brilho e de intensidade a cada instante. Sochin abraçou-se ainda mais ao irmão e enterrou a cara no seu peito, incapaz de se mover. O encantamento aumentou de tom:
-Erguei-vos, forças do Fogo, e obedecei-me, pois sou em quem vos detém!
Kuroi gemeu de forma quase inaudível, tentando ainda levantar-se a tempo de quebrar a magia mas ficando cada vez mais fraco à medida que uma dor insuportável tomava novamente conta do seu corpo.
-Ordeno-vos que sigais o meu comando! AGORA...!!!
Um relâmpago seguido de um trovão quase em simultâneo cortaram os céus nesse preciso momento em que a esfera incandescente nas mãos de Mera iluminou o chão e as casas escurecidas com um ruído ensurdecedor que fez estremecer tudo em volta. O céu, já mais negro que cinzento, parecia de repente desfazer-se sobre eles de repente em grossos pingos de chuva que batiam no chão com pequenos estalos.
Makoto era o único que continuara a olhar e a sua respiração parara, estarrecido. Entre Mera e Kuroi erguera-se, num intervalo não maior que um segundo, uma barreira de gelo grande o suficiente para conter o ataque, que agora se precipitava em água e vapor graças ao choque com a magia de fogo da rapariga. O tempo pareceu parar por instantes para todos eles e Kuroi, que não conseguia já quase mover-se, abafou uma exclamação ao olhar atrás de si.
Uma figura envolta numa longa capa negra, fechada por um brasão de um metal acobreado que protegia um dos ombros e com o capuz colocado, botas e luvas sem dedos em tons de castanho e negro, segurando numa das mãos um bastão de madeira gravado com a figura de uma serpente enrolada e encimado por uma lâmina tripla de metal adornada com uma pedra brilhante semelhante a um rubi, e estendendo a outra mão após o gesto de erguer a parede de gelo, suspirou longamente e num tom familiar.
-Esta rapariga é outra sucessora, presumo...?
-D'Evans?! - Perguntou Kuroi a custo, reconhecendo-lhe a voz e voltando a tentar levantar-se. - O que é que estás a fazer aqui?
-O feiticeiro? Mas o que é que... - Balbuciou finalmente Makoto, sem fôlego, à medida que Sochin e Ken'ichi se apercebiam do sucedido.
-Estava a passar quando comecei a ver as pessoas virem na direcção contrária a esta e decidi dar uma vista de olhos no que se estava a passar. Não foi assim tão mal pensado, hã? - Respondeu Luke, erguendo o olhar sério para a rapariga de cabelo negro que se refazia ainda da surpresa, limpando do rosto as gotas de chuva.
-Um dreffeliano? Como é que conseguiu parar o meu ataque tão facilmente?
O feiticeiro recuou um dos pés para ganhar equilíbrio e segurou o bastão firmemente com ambas as mãos.
-Vocês os três aí ao canto, ajudem o Seishin a levantar-se. Eu consigo tratar disto. - Ordenou sem se voltar para os três humanos.
Ken'ichi reagiu de imediato, correndo para o meio-irmão e ajudando-o a por-se de pé. O mais novo deu a mão a Sochin para a erguer e foi para junto dos outros rapazes.
-D'Evans, o que é que estás a pensar fazer? Não vais conseguir ganhar contra uma Sucessora, a diferença de poder é simplesmente... - Começou Kuroi.
-Sem problemas. Ela esgotou a maior parte da sua energia com aquele ataque preparado e eu tenho vantagem contra Fogo com esta chuva. Posso não estar ao nível de um de vocês, mas não sobrevivi até agora só com feitiços de recuperação.
Luke fez um gesto rápido com o bastão e logo a água das poças que se formavam no chão em seu redor se concentrou no ar junto à lâmina. Com outro movimento, a água disparou em pequenas agulhas que se tornavam em gelo à medida que voavam na direcção de Mera.
A rapariga de cabelos negros levantou uma barreira de fogo para derreter o gelo do ataque, mas esta pouco durou graças à chuva no chão. Desviou-se de algumas das últimas agulhas baixando o corpo e apoiando uma das mãos no chão molhado, até que sentiu essa mão ficar rígida e fria.
Olhou para baixo. Um maciço de cristais de gelo estendia-se desde o chão em frente a Luke, aumentando de tamanho até lhe apanhar o braço até ao cotovelo. Com os dedos e o pulso totalmente imobilizados, viu o feiticeiro arremessar contra si uma coluna de água.
Só teve tempo de derreter o gelo junto ao braço com a mão livre e resvalar pelo chão para se desviar do ataque, e concluiu que não poderia ficar na defensiva contra aquele adversário. Respirando fundo, transportou-se uns metros adiante e investiu contra ele com um punho envolto em chamas.
O rapaz, apanhado de surpresa, colocou o cabo do bastão entre os seus corpos e deflectiu-a novamente para o chão.
-Selo!!
No instante em que as mãos da rapariga tocaram o chão, a água da chuva que lhe caía em cima solidificou até a prender por completo. O gelo alastrou até lhe cobrir a maior parte do peito e os seus pés ficaram também presos por outro maciço de gelo. Estava perfeitamente imobilizada e impedida de usar os seus poderes.
-C-como é que é possível? Um dreffeliano comum... - Gemeu.
Luke aproximou-se, empunhando o bastão como uma lança, com a lâmina ameaçadoramente apontada a ela.
-Podes causar problemas onde quiseres, mas quem ameaçar a segurança nesta cidade tem de se haver comigo. Espero que não penses que vocês, os Sucessores, são os únicos capazes de se enfrentar.
A rapariga suspirou, consternada.
-Um feiticeiro, hã... Julguei que estivessem extintos.
-Seishin! - Gritou o rapaz, voltando-se para o grupo. - O que fazemos com ela?
Kuroi levantou o olhar para os dois, atarantado pelo desfecho da luta. Fez sinal a Ken'ichi e Makoto para que o deixassem andar sozinho, e caminhou a custo na direcção de Mera.
-Porque é que estás a fazer isto? - Perguntou com voz sumida.
Mera fitou-o, surpreendida.
-É a missão que tenho de cumprir.
-Não sejas ridícula... Conheço-te melhor do que isso!
Makoto seguia as expressões de ambos atentamente. Ao contrário do que esperava, Kuroi não lhe parecia enraivecido, mas antes fitava Mera com um olhar inquisitivo, de pena. Esta aparentava esconder algo, mas preservava o seu orgulho naquela situação de total derrota.
-O Edgar... ele traiu-me e ficou na Terra. Se regressar sem provas de ter cumprido esta missão, o próximo alvo serei eu.
Kuroi cerrou os punhos ao longo do corpo, enervado.
-Mas porquê essa missão? Porquê tu? Não estamos na Terra para te ouvirem, diz-me ao menos isso!
Ao terminar a frase, perdeu por instantes a força nos joelhos e tossiu um fiapo de sangue. No entanto, o seu olhar estava cravado nela.
-Seishin, não piores a tua situação. Vais perder demasiado sangue se te continuares a esforçar assim. - Advertiu-o Luke, indo para junto dele com ar severo.
O rapaz de cabelo castanho não respondeu. Continuava com os olhos verdes postos em Mera, que baixara os seus para o chão e soluçava baixinho. Não era capaz de distinguir por causa da chuva cada vez mais forte, mas pareceu-lhe que a jovem chorava.
-Mera...
-Se não fosse eu, outro assassino viria... Eu não podia permitir... Pensei, até, que pudesse arranjar alguma forma de evitar tudo isto, mas ainda não tinha a confiança dos meus companheiros, que enviaram o Edgar para observar a missão... - Começou a rapariga, não conseguindo dizer mais nada por entre soluços.
-D'Evans, podes libertá-la. - Disse o rapaz em voz baixa, para grande surpresa do feiticeiro.
-Assim, sem mais nem menos? Ela ainda consegue lutar! - Contrapôs-se este.
-Por favor. Eu sei que ela não vai tentar mais nada.
Luke suspirou, retornando o gelo à sua forma líquida mas mantendo a guarda.
Mera, agora livre, limpou com uma mão o rosto molhado mas não se levantou.
-Arigato... Kuro-chan...
-Já te disse que odeio que me chames isso? - Disse o rapaz, sorrindo levemente e baixando-se para junto dela. - Se o que queres é uma prova, dar-ta-ei. Isto tem de ficar por aqui!
A jovem sacudiu a cabeça, em sinal de negação.
-Não posso... não quero regressar lá. A dívida que tenho com eles não se compara ao que estive quase a deixar para trás...
Kuroi suspirou de alívio, fechou os olhos e tombou no chão, sem sentidos. Os amigos aproximaram-se dele a correr, alarmados.
-Vamos levá-lo para minha casa.  - Disse Luke. - Ele precisa urgentemente de repouso. E quanto a ti...
Mera pôs-se de pé, enxugando em vão as lágrimas que se misturavam com a chuva com a ponta molhada da capa. Procurou em si coragem para continuar a falar e fitou o feiticeiro, que aguardava pela sua resposta.
-Não terão de se voltar a preocupar comigo.

Posted by Seishin Hermy @ 17:53
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Capítulo XVII: Prova de Fogo


O Sol já começava a dar sinais de avermelhar em Hodes quando Makoto e Sochin penetraram numa pequena praça escura e abandonada. As casas nesse lugar estavam envelhecidas, as suas velhas paredes descascadas e recobertas de musgo e líquenes. Num canto ou outro era visível um orifício que serviria, talvez, de ninho a algum roedor.
O rapaz franziu o nariz com estranheza.
-Já me podes explicar o que viemos fazer aqui?
A rapariga desviou o olhar para os pés, tentando inventar uma desculpa.
-Queria mostrar-te uma casinha linda que tinha encontrado algures por aqui, - Mentiu com desembaraço - mas acho que quando voltei para trás à tua procura me perdi.
Makoto suspirou, enfadado.
-Tens a certeza disto? - Sussurrou Ken'ichi para trás de si, observando os dois irmãos a partir de um beco meio oculto na penumbra.
-Que escolha tenho? É a única forma justa de lhe dar uma segunda oportunidade. - Respondeu do fundo do beco um rapaz pálido, de cabelo branco como a neve e olhos azuis-claros, dando os últimos nós num lenço vermelho que trazia ao pescoço. Sacudiu um pouco a poeira das calças de bombazine castanha, respirou fundo e fitou o outro.
-Conto contigo para observares de fora. - Continuou, dando um passo em frente e colocando a mão no ombro do mais velho. - Vou precisar também da tua opinião, Ken.
O outro sorriu, não sem alguma estranheza ao fitar o rosto do irmão.
-Não te preocupes, vou estar de olho em tudo. Faz o que tens de fazer, "Ryo".
Kuroi assentiu, retribuindo com um sorriso nervoso e olhou na direcção de Makoto, determinado. Avançou para a praça a passos largos e decididos, acabando de prender atrás, no seu cinto, um revólver que Ken'ichi lhe emprestara.
"Que comece o teatro!"
Foi Sochin que chamou a atenção do irmão.
-Nii-chan, acho que não estamos sozinhos...
Makoto voltou-se a tempo de ver surgir na esquina a figura alta e esguia de um albino com o olhar frio parcialmente oculto pela sombra e pelas madeixas de cabelo claro. Este sorria de forma inquietante, com a cabeça baixa.
-Humanos... o que é que pensam que estão a fazer num sítio como este?
A rapariga afectou nervosismo, lembrando-se do que Kuroi lhe dissera antes de se separarem. Enviaria um amigo, Ryo Daisuke, para tentar desencadear uma luta, e garantira-lhe que estaria a observar tudo.
-Perdemo-nos, chegámos ontem à cidade e ainda não a conhecemos bem. - Respondeu Makoto com toda a calma que conseguiu achar dentro de si.
-Eu posso ajudar-vos... a não encontrar o caminho de volta.
Retirou o revólver do cinto com um gesto rápido e apontou-o a Sochin, que não sabendo que estava descarregado abafou um grito de surpresa.
-Hey, o que é que estás a fazer? - Gritou o loiro, alarmado.
-Dá-me o que eu quero e a miúda não se magoa.
-Mas que brincadeira é esta? O que é que tu queres? - Berrou o outro, já quase em pânico. Sochin tremia ao seu lado, paralisada com medo da arma.
Kuroi, na figura de Daisuke, fez um esforço para manter o tom sereno e inquietante.
-Quero um combate, pura e simplesmente um combate até às últimas consequências. Tenho sede de sangue e suor.
Makoto engoliu em seco. Tinha medo, mas não poderia permitir que Sochin se magoasse.
-Com que armas? - Perguntou com voz trémula.
-As únicas armas de que precisamos são as que nasceram connosco. - Respondeu o falso albino. - Anda para aqui, e nada de gracinhas. Quando estiveres perto o suficiente para não te escapares, eu guardo o revólver.
O loiro assim fez, avançando em passos lentos e mantendo o olhar preso na arma de fogo que agora o ameaçava a si. A Kuroi custava sobretudo assustar o amigo dessa maneira, mas sabia que Sochin era a única razão através da qual poderia forçá-lo a lutar, ameaçá-la o único tabu que o faria perder o sangue-frio. Não sabia como Makoto se tentaria escapar da situação, ou se tentaria, mas estava decidido a esperar até ao final para dar o seu veredicto.
O início da resposta não tardou em surgir. Sem que tivesse reparado, o rapaz fizera um sinal muito discreto à irmã, por trás das costas, para que esta se baixasse. Com um gesto brusco alarmou Kuroi, que inconscientemente disparou para o ar, e de um pontapé certeiro sacou-lhe a arma da mão. Agarrou-a, mas antes que se pudesse aperceber de que estava descarregada e continha apenas pólvora seca pelo seu peso o outro deu-lhe um soco que o deixou atordoado por uns segundos.
A arma caiu no chão, e o mais velho decidiu que assim deveria ficar até ao final do teste.
O loiro recompôs-se rapidamente, satisfeito com a situação de igual para igual de que agora gozava, mas não deu sinais de contra-atacar. Em vez disso, recuava muito lentamente para junto da irmã para fugirem antes que pudesse reaver o revólver. Sochin ficara agachada, muito quieta, junto ao objecto. Sentiu que lhe competia agora a função de terminar o combate quando o considerasse demasiado perigoso para qualquer um dos dois.
-Nem penses que vais fugir! - Exclamou o falso Daisuke, lançando-se contra ele e segurando-o pelos braços o melhor que conseguia com aquele corpo sem poderes. Enrodou nele uma perna, com o objectivo de o derrubar, mas Makoto tomou uma atitude inesperada: agarrou-o pela manga da t-shirt preta e branca, deu-lhe um puxão brusco e desequilibrou-o com a sua própria estratégia. Tendo-o quase no chão, surpreendido e agarrado pelo cachecol para não se magoar, pousou-o e imobilizou-lhe os membros.
-Desculpa, mas não vai haver sangue aqui e agora.
Kuroi, sem a sua força habitual, deixou-se ficar, ofegante. Makoto estava também visivelmente cansado, mas continuava a segurá-lo com firmeza.
Sochin, percebendo que haviam atingido uma situação de impasse, decidiu agir. Pegou no revólver e, apercebendo-se então do seu peso, disparou para o ar.
-Acabou! - Gritou, apontando a arma ao mais velho. - Nii-chan, podes soltá-lo. Se ele fizer algum movimento brusco eu atiro!
Makoto assentiu, assombrado com o sangue-frio da irmã. Largou o outro cuidadosamente e recuou para junto dela.
Kuroi levantou-se com os braços erguidos com um sorriso, desta vez sincero e gentil. O mais novo estranhou esta mudança tão repentina, mas ainda mais o facto de Sochin ter largado a arma logo de seguida, respirando fundo.
O mais velho passou a mão pelo cabelo alvo e um pouco longo com uma expressão de alívio. Recompondo-se, recomeçou a sua actuação como Daisuke.
-Podes acalmar-te, miúdo. - Disse para Makoto. - Não era a sério.
Este voltou-se para Sochin, indignado.
-Mas o que é que se passa aqui? - Perguntou, ofegante. - Tu sabias disto?
Sochin assentiu, com os olhos postos nos pés.
-Desculpa.
-Calma, - Interrompeu o outro. - Foi o Kuroi que lhe pediu que não te contasse nada e que arranjasse uma desculpa para te trazer aqui. Não te zangues com a tua irmã.
-E tu quem és? O que raios se passou aqui afinal?
-O meu nome é Ryo Daisuke, eu e o Kuroi somos amigos desde pequenos. Encontrámo-nos nesta cidade por acaso e ele pediu-me que te pusesse à prova. Acho que queria ver qual era a tua resposta a uma situação em que fosses forçado a lutar.
O mais novo cerrou os punhos, enfurecido.
-Mas qual é a dele? Primeiro trata-me como uma criança e agora anda a testar-me? Isto já foi longe demais!
-Nii-chan, ele está a tentar dar-te uma oportunidade! - Gritou a rapariga de repente.
-Eu compreendo a tua reacção, mas o que ela diz está certo. - Interveio Kuroi, tentanto não se desmascarar diante dos dois. - Não me parece que isto tenha sido apenas um "teste", mas mais um pretexto para te dar uma segunda oportunidade. O Kuroi sabe muito bem o quanto tu queres continuar aqui.
Makoto baixou a cabeça.
-E manda alguém fazer isso por ele?
-Se ele te desafiasse cara-a-cara, tu aceitavas sequer? Tendo conhecimento dos poderes dele, achas que eras capaz de considerar o combate justo? Até eu tive de me conter um pouco, apesar de te teres defendido muito bem.
-Realmente... Se ele aparecesse à minha frente em vez de o enfrentar eu tinha acabado a dizer coisas que não sinto. Começo a achar que ele tinha razão, sou mesmo um miúdo parvo. - Respondeu o loiro, arrastando tristemente a voz com raiva de si mesmo.
-Isso não é verdade! - Exclamou o mais velho, colocando a mão no seu ombro talvez com demasiada familiaridade. - A tua reacção a este teste foi muito boa, tenho a certeza de que o Kuroi achou o mesmo.
-Onde está ele, agora? - Perguntou a rapariga, curiosa.
-Já deve ter ido embora. Ainda vamos discutir sobre isto mais tarde, mas vocês deviam animar-se... o teste foi passado com distinção! - Respondeu o albino, rindo.
Makoto tentou ergueu o olhar para ele e tentou esboçar um sorriso.
-Afinal, ele importa-se... Acho que lhe fiquei a dever um grande pedido de desculpas depois disto.
-Oh, esquece isso! Não é preciso, a sério! - Exclamou este de repente, com demasiada naturalidade.
-Eh... como é que sabes que não é?
-Quer dizer... - Pigarreou, embaraçado. - Eu conheço o Kuroi muito bem... tenho a certeza de que ele não está chateado e quer esquecer este assunto rapidamente. Em todo o caso, a minha parte nisto já foi cumprida, está na hora de ir andando antes que perca a caravana de volta para a minha cidade. Gostei de vos conhecer, espero que nos voltemos a encontrar em melhores circunstâncias!
Dito isto, deu meia-volta e entrou no beco.
-Ele sabe que aquilo não tem saída para a cidade, certo? - Perguntou Sochin de forma audível.
Sob uma gargalhada silenciosa de Ken'ichi, que se encontrava ali escondido, Kuroi voltou para trás com todo o sangue preso na face pálida, e saiu pelo outro extremo da minúscula praça. Escondeu-se atrás de uma carroça abandonada, esperou que os dois irmãos saíssem de volta para a estalagem e retornou para junto do meio-irmão. Este encontrava-se agachado, apanhando do chão o revolver.
-Foi por pouco, hã? - Comentou em tom de troça.
-Nem me digas nada. Pelo menos acabou por correr tudo bem!
-Sim, o miúdo safou-se em grande estilo!
Kuroi desapertou o cachecol para se refrescar, concentrou-se com os olhos fechados e uma nuvem negra pareceu surgir do nada e apoderar-se do seu corpo.
Quando finalmente desapareceu, uns segundos depois, o rapaz estava de volta à sua forma original. Ajeitou discretamente a franja castanha, irremediavelmente desordenada, e fitou o irmão com os seus próprios olhos verdes, exibindo um semblante exausto.
-Não pareces nada bem. - Comentou o mais velho.
-Estou cansado, isto passa-me. O tratamento e todo este tempo na forma do Daisuke usaram uma grande parte do meu poder... De qualquer modo, agora é prudente esperar um par de horas ou assim antes de voltarmos para a estalagem. Não podemos deixar que aqueles dois desconfiem de nada. - Respondeu o rapaz.
Ken'ichi acenou com a cabeça, suspirando.
-É estranho... já passaram mais de seis anos sobre a última vez que te transformaste no Daisuke, quando o teu poder se descontrolou, mas ainda me dá calafrios, sabias?
-Acredita, Ken... o meu poder não assusta ninguém mais do que a mim.

***

Duas horas mais tarde, Kuroi irrompeu pela estalagem acompanhado pelo irmão. Trocara de roupa desde o teste, envergava agora umas calças de ganga tingida azul-escura com barras elásticas de um tom mais forte ao longo das costuras, uma t-shirt vermelha-escura e um casaco preto, de tecido leve, com detalhes e gola em malha cinzenta, dois bolsos no peito e mangas arregaçadas presas cada uma por uma faixa e um botão metálico. Escondera minunciosamente a queimadura no antebraço esquerdo, enrolado com uma ligadura branca sobre a área da marca.
-Yo! - Saudaram os dois, juntando-se aos Kime em redor da mesa habitual.
Makoto, que até esse momento se encontrara silencioso de volta de uma rã de papel caoticamente dobrada que fazia mais lembrar um monstro disforme e, evidentemente, incapaz de saltar, ergueu o olhar para o amigo ao seu lado. Todo o seu rancor havia desaparecido.
-Posso? - Perguntou Kuroi a este, puxando de uma folha de papel lisa do monte em cima da mesa e começando a dobrá-la com perícia sem esperar resposta. - Creio que é isto que estás a tentar fazer.
Uma pequena rã de papel saltitou sobre a mesa com apenas um toque do seu indicador. Makoto, fascinado, pegou nela e examinou-a.
-Como é que fizeste isto? Já tentei milhões de vezes todas as dobras possíveis e não sou capaz! - Queixou-se.
Depois, lembrando-se dos acontecimentos dessa tarde, baixou o olhar, envergonhado.
-Makoto, está tudo bem. - Disse o outro, dando-lhe uma pancadinha leve no ombro. - Sou eu quem devia pedir desculpa por dizer as coisas sem pensar bem nelas. É normal perder a cabeça de vez em quando, por isso... nenhum de vocês volta a lado nenhum se não quiser.
O loiro hesitou por uns segundos e depois sorriu, mostrando a rã de papel de Kuroi na palma da sua mão.
-Ficamos quites... se me ensinares a fazer uma destas! - Exclamou, satisfeito.
Enquanto Kuroi lhe passava para as mãos uma folha nova e lhe explicava como a dobrar correctamente, Sochin fitava um ponto imaginário no tecto.
-Como é que fazes isso tão facilmente? - Acabou por perguntar, curiosa.
Foi Ken'ichi que respondeu.
-Antes de nos mudarmos para a América, havia um avôzinho no nosso bairro que ocupava o tempo a fazer origami. Durante o tempo que lá estivemos depois de o Kuroi chegar costumávamos visitar a casa dele para aprender. Ao contrário do meu irmãozinho aqui eu já me esqueci de metade dos diagramas com a falta de prática. Mas, convenhamos, ele não é humano.
Kuroi sorriu, embaraçado, coçando a cabeça com uma mão.
-Há algo que me está a intrigar mais neste momento. - Comentou o mais novo. - Quem era, afinal, aquele Ryo Daisuke que encontrámos esta tarde?
O rapaz de cabelo castanho pigarreou, tentando encontrar uma forma simples de explicar que não o denunciasse.
-É um velho amigo meu aqui de Dreffel, conhecemo-nos ainda em miúdos e éramos muito próximos. Eu sei que o... aspecto dele pode surpreender um pouco ao início, mas ele é exactamente como qualquer um de nós e uma pessoa excepcional.
-Sim, pareceu-me ser boa pessoa, apesar de ligeiramente lunático. Foi pena ter ido embora tão depressa. - Respondeu o loiro, dando saltinhos com a sua rã em cima da mesa.
-Pareceu estranho ao início, mas até o achei bastante giro! - Exclamou a rapariga, com os seus grandes olhos azuis reluzindo ao brilho das lamparinas. - O cabelo claro fica-lhe mesmo bem!
-Tu achas 90% dos rapazes giros. - Retaliou o irmão que, entusiasmado, transformava já o resto do monte de papel em pequenas rãs.
-Vocês, homens, não iriam compreender a sensibilidade estética de uma rapariga. - Disse ela com desdém.
-Esperemos que não! - Exclamou Ken'ichi, coçando a cabeça com descontracção por entre o cabelo curto, farto e negro. - Se compreendêssemos, era para desconfiar.
Os outros dois assentiram, com um sorriso de troça. Depois, parecendo lembrar-se de algo, Kuroi tornou ao seu semblante sério e fitou o amigo.
-Makoto, podes vir comigo lá acima? Precisava de te dar uma palavrinha a sós.
-Hey, miúdo, o que é que vocês vão fazer lá acima os dois? Que é isso, lembrei-vos de alguma coisa? - Gozou o mais velho, fracassando redondamente ao tentar parecer sério.
-Ken, cala a boca.
Já no quarto, os dois rapazes fecharam no trinco a porta atrás de si.
-É algo sobre esta tarde? - Adiantou-se o mais novo, sentando-se na cama.
-De certa forma. Sim. - Respondeu o outro, sentando-se no chão. - Quero saber o que achas de avançar o teu treino para o nível seguinte. Sei que é algo que consegues superar, mas precisas de estar disposto a fazê-lo.
-Porque não? - Disse Makoto. - Estou contigo para aprender.
-Makoto, isto não tem comparação possível com o nosso treino até agora. Aquilo que temos feito, simples imitação, vai parecer uma brincadeira. O próximo nível consiste numa regularização do treino e uma orientação específica para a condição física, visto que já dominas a estratégia a um nível para além do que eu esperava. Achas-te preparado para isto?
-A minha resposta mantém-se. Por agora podes preocupar-te contigo mesmo e com o teu tratamento, eu aguento o que for preciso e não quero encontrar-te em baixo de forma. Estou ansioso para ficares bem e podermos começar!
Kuroi meditou sobre estas palavras por uns segundos, sacou de um pequeno bloco e um lápis mal afiado do bolso das calças, escreveu uma série de indicações, rasgou a folha e entregou-a a Makoto com um movimento rápido.
-Tens aqui as indicações de como chegar à rua onde estou a fazer o tratamento com o curandeiro da cidade. Amanhã quando acordares tenta despachar-te a ir lá ter e vamos para o bosque fora da cidade onde podemos treinar em paz.
Vendo, então, a surpresa do amigo, sorriu e acrescentou:
-Não te preocupes, para o tipo de treino que vai ser nos primeiros dias eu aguento na perfeição sem intervir fisicamente. Tudo o que tenho são dores.
O rapaz assentiu, entusiasmado.
-E COME. Tu és só altura e ossos, e assim não vamos a lado nenhum contigo. - Acrescentou o mais velho.
-Diz à Sochin que me entregue o Almoço, e terei a minha dose de carne fresca!
Nesse momento, uma bola lilás e penugenta saiu de debaixo da almofada com um pio agudo e sofrido.
-Sim, saco de penas com bico, estava a falar de ti!
Kuroi não pôde, apesar das dores que sentia, evitar uma gargalhada quando a cria de falcão bateu as asinhas desajeitadas com rapidez e se atirou a Makoto, acoplando na sua cabeça.
-Parece que encontrou o ninho perfeito!
Por entre grunhidos, dos quais se podiam apenas discernir as palavras "avezinha estúpida", tentava tirar o animal da cabeça, sem sucesso. Este retaliava, bicando-lhe os dedos até sangrarem.
-Almoço, anda cá! - Ordenou-lhe Kuroi, divertido.
O monte de plumas lilás saltitou displicentemente do seu loiro poleiro para junto dos pés do outro rapaz, que lhe parecia mais confiável.
-Essa coisinha é demoníaca! - Grunhiu o mais novo, esfregando a cabeça.
-O teu treino vai ser pior. - Advertiu-o Kuroi. - Se fosse a ti pensava em ir deitar-me mais cedo esta noite, vais querer descansar.
-Estás a assustar-me, Senpai! O que é que vamos fazer assim de tão puxado que possa ser equiparável a levar com esta coisa bicuda em cima?
-Nada, esquece, não te preocupes agora com isso... - Respondeu o outro, distraído. -Vai andando lá para baixo, estão quase a servir o jantar. Eu já me junto a vocês depois de consultar aqui uns mapas.
Makoto assentiu, nervoso, deixando-o a sós com o pequeno falcão lilás.
Kuroi não chegou a aparecer à mesa para jantar, Ken'ichi assegurou aos Kime que não lhe tinha ouvido falar em sair durante o serão.
-Então porque não vem ter connosco? Ele disse que ia consultar uns mapas, não era suposto demorar tanto.
Ken'ichi proferiu um "pois" em surdina e apoiou a cabeça numa mão. Sabia que, naquele momento, o meio-irmão estaria muito provavelmente deitado sobre a cama, imóvel, talvez mesmo sem sentidos depois de passar no mesmo dia pelo rigor do tratamento e por ter possuído o corpo de Daisuke durante tanto tempo. O seu poder devia estar quase totalmente esgotado.
-Deve ter adormecido... - Disse, por fim, com um suspiro. - Vou ao quarto ter com ele, já não tenho mais fome.
-Então... não vais comer isso? - Inquiriu o loiro, olhando cobiçosamente para o prato meio cheio do mecânico onde se espraiava um apelativo monte dourado de batatas fritas.
-Nii-chan! - Censurou-o a rapariga, envergonhada com a falta de cerimónia do seu irmão mais velho.
-Que foi? - Respondeu este, já enfiando na boca uma mão-cheia de fritas. - Foi o Senpai que me disse para comer bastante!
-São todas tuas. - Respondeu o outro com um sorriso. - Mas não toques no bife, a sério. Está demasiado passado.
Makoto assentiu. Gostava de carne bem passada, mas não ao ponto de de assemelhar ao monte de carvão parcialmente oculto por uma batata que se lhe apresentava no prato.
Finalmente a sós com Sochin, o rapaz parou por um momento de comer.
-O que é que o Senpai te disse sobre aquele Daisuke? - Perguntou, voltando-se para ela.
Esta, surpresa, recordou-se do que ouvira nessa tarde.
-Contou-me basicamente o mesmo que a ti, mas falou noutra coisa... Falou em "usá-lo"...
-Que te pareceu isso no contexto?
-Eu entendi que se tratasse de um favor. Porquê?
-Nada, devem ser coisas da minha cabeça. - Respondeu o rapaz. - Aquele tipo parecia mesmo que nos conhecia, não achaste...?
-É natural que o Kuroi-kun lhe tenha falado de nós antes de o enviar para isto.
-Sim, pensei o mesmo. É o mais certo.
Terminado o jantar, ambos subiram em silêncio para o quarto ao lado do dos irmãos Seishin.
-Amanhã de manhã vou treinar com o Kuroi. - Informou o rapaz, sentado na sua cama e atirando para o ar um ténis que custara a arrancar do pé inchado pelo incidente com a caixa de ferramentas que preenchia agora os seus pesadelos mais negros.
-Uau, vais acordar cedo! Que coisa rara! - Brincou Sochin, já metida no seu pijama com nuvens cor-de-rosa e pronta para se deitar.
-Pelo menos eu não passei por uma experiência com "Jet-lag" interdimensional, maninha! - Respondeu o loiro. Depois, acrescentou - Ele pediu-me que fosse ter à casa do curandeiro antes de irmos, não percebi muito bem porquê.
A rapariga engoliu em seco e falou com voz sumida:
-Hoje, pouco depois de teres saído, ele voltou do primeiro tratamento e veio ter connosco. Quase se arrastava, não sei como se aguentou a tarde toda...
Cortando a conversa por aí, ambos se deitaram com um "Boa Noite" e apagaram as lamparinas que tinham à cabeceira.
A mais nova adormeceu de imediato, mas Makoto ficou ainda absorto nos seus pensamentos por algum tempo. Suspirou ao lembrar-se do que ela acabara de lhe contar.
"Grande palerma, Senpai... Depois de me chamares irresponsável, fazes-me acreditar que tudo está bem e andas assim por aí... Mas hoje consegui surpreender-te e ao Daisuke, e amanhã juro que darei o meu melhor para o fazer novamente!"

Posted by Seishin Hermy @ 13:44
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Capítulo XVI: O Feiticeiro da Água


-Sochin, passa-me essa mala. Temos de tirar o carro e a bagagem deste navio antes que volte a levantar âncora.
A jovem assentiu e ergueu, com algum esforço, uma mala azul-escura que estendeu na direcção do irmão.
Este segurou-a pela pega facilmente com uma única mão, colocando-a na bagageira do velho jipe descapotável, enquanto com a outra mão afastava o cabelo louro dos olhos com um ar preocupado.
Não reparou quando a rapariga, já no limite das suas forças, lhe tentou passar um enorme saco de ferramentas. Parte do saco caiu de encontro ao chão de madeira do porão, mas a área em que se incluía o pesado martelo encontrou nicho sobre os seus ténis gastos e mal apertados, que por sinal tinham um par de pés no seu interior.
Um grito lacinante cortou o silêncio há muito instalado entre os quatro últimos passageiros a desembarcar. Até esse momento, tudo o que se ouvira de forma perceptível haviam sido algumas frases soltas.
-Nii-chan! Estás bem?? - Guinchou Sochin, preocupada.
Makoto olhou de relance para Kuroi, tentando não parecer fraco, e assentiu.
-Isto já passa. Vamos desembarcar.
Kuroi disfarçou um suspiro, desviou o olhar para as tábuas do chão e arrastou os pés, lado a lado com Ken'ichi, pela prancha de desembarque.
O mais velho procurava o capitão para lhe agradecer ter disponibilizado o porão para levarem o carro, mas decidiu não o interromper ao vê-lo, debruçado sobre a balaustrada e fumando o seu cachimbo, dando ordens sem nexo aos marinheiros apenas para os manter ocupados.
-Ainda não me contaste sobre a tua conversa com o Makoto ontem de manhã. - Desabafou em voz baixa o rapaz de cabelo castanho, colocando os braços atrás da cabeça e fitando o vazio, afectando desinteresse.
O meio-irmão colocou a mão sobre o seu ombro.
-Nem tu sobre a tua conversa com a Sochin. Estamos quites.
O outro forçou um sorriso, avançou rapidamente e parou em frente do resto do grupo.
-Bem, chegámos a Hodes! A paragem aqui vai ser longa, por isso sugiro que aproveitem para apreciar a paisagem e relaxar!
-Kuroi-kun, fica-te pelos sermões. És uma ruína como quebra-gelo. - Comentou a rapariga, embaraçada.
O rapaz pigarreou.
-Obrigado pelo feedback positivo, Sochin.
-Bem posso apreciar a paisagem, vai ser o meu postal de despedida deste mundo.
O mais novo dos rapazes soava grave e sério, apesar de não ter ainda mudado a voz como seria normal na sua idade. Foi ignorado pelo amigo.
-Ken, deve haver uma estalagem aqui perto. Importas-te de a procurar e de irem reservando os quartos?
-Não há problema, - Respondeu o mais velho - mas não vens connosco?
-Estou cada vez mais debilitado, é melhor procurar ajuda médica ainda hoje. Junto-me a vocês mais tarde, OK?
Sem esperar resposta, virou as costas. Preparava-se para penetrar na rua principal da cidade quando sentiu que uma mão esguia mas firme lhe segurava o pulso.
-Não vais mesmo dar-lhe uma hipótese...? - Sussurrou-lhe Sochin, sem que os outros reparassem.
-Tem paciência. Tudo se resolverá a seu tempo, e estou certo de que será pelo melhor para todos.
Dito isto, avançou para a multidão até a rapariga o perder de vista.

***

-Já vejo a estalagem, é ali à frente! - Exclamou Ken'ichi, apontando para um edifício de madeira de dois andares.
-Bah... tanto me faz onde é. - Resmungou Makoto, de mãos enterradas nos bolsos, chutando uma pedra solta na calçada com olhar ausente.
A irmã, que ia um pouco mais à frente, voltou-se para o loiro com o olhar fixo nele.
-Não consegues parar de pensar nisso e tentar distrair-te? Olha só para este dia magnífico! - Exclamou.
-Para mim está igual a um dia de trovoada. Um dos últimos dias que vamos passar neste mundo.
-Makoto-kun... posso contar-te uma coisa?
O rapaz desviou a sua atenção para o mais velho.
-O quê...?
-Os dias de sol como hoje costumam deixar o meu irmão de mau humor, já estou habituado a isso. Mas não é algo assim que o faria tomar uma decisão precipitada. Tem confiança nele.
-O que é que vocês não me estão a contar? E para ficar de mau humor com um dia assim, o que raios é ele? Uma coruja?
-Não, um semi-deus! - Riu Ken'ichi, seguindo caminho.
O loiro estremeceu. Nunca pensara em Kuroi como mais do que um humano com uma força e sentidos fora do comum, mas sabia bem que ele era descendente de Tyfar.
-Mas ainda estou à espera da resposta à primeira pergunta! Hey, Sochin, Ken'ichi-san!
Não obteve resposta. Os outros dois já prosseguiam caminho, alguns metros à frente.
Com um suspiro correu a juntar-se a eles, sentindo ainda um nó no estômago.

***

Kuroi vagueava pelas ruas da cidade, nostálgico.
Todo aquele movimento típico das cidades dreffelianas recordava-lhe a sua infância em Shinai, amarga mas simples e inocente. Mas Dreffel mudara muito desde esse tempo. Agora que estava no continente, deparava-se com um mundo humanizado, modernizado, muito diferente do que se recordava, mas ainda com a mesma sensação de familiaridade.
Inspirou fundo, mas parou de repente quando uma dor indescritível lhe tomou conta dos pulmões. Estava na hora de deixar de lado o saudosismo e procurar ajuda rapidamente.
Avistou uma ruela mais movimentada e interpelou uma mulher de cabelo alaranjado e aspecto afável que parecia menos apressada.
-Desculpe... - Começou - Sabe dizer-me onde vive o médico da cidade?
Ela voltou-se com um sorriso acolhedor e ponderou por um segundo antes de responder.
-Não sei se pode ser considerado um médico, mas há alguém que te pode ajudar. Vive na última casa daquela rua. Mas se fosse a ti não ia ter com ele hoje... está de mau humor.
Kuroi estranhou este conselho e decidiu insistir.
-E amanhã...?
-Não é boa ideia, amanhã ele também vai estar de mau humor.
-Mas a senhora será por acaso... uma vidente?
-Não, querido! É que ele está sempre de mau humor...
-E como é que fazem quando ficam doentes?
-Aqui ninguém se atreve a ficar doente sabendo que o curandeiro local é ele.
-Bom... obrigado pela informação. - Respondeu Kuroi enquanto voltava as costas, perturbado.
-Não tens de quê! - Respondeu a mulher com um sorriso rasgado.
Afastou-se na direcção que lhe havia sido indicada, confuso. Que tipo de homem poderia ter um mau humor tão pronunciado que causasse medo numa cidade inteira?
À medida que se aproximava do fundo da rua, notou que os edifícios eram cada vez mais antigos e alguns estavam mesmo abandonados. Quando finalmente chegou à última casa, uma pequena construção de pedra grosseira com telhado coberto de colmo, não havia ninguém em seu redor. Era como estar numa cidade-fantasma dentro de uma metrópole.
Bateu à porta, que se abriu ligeiramente com um chiar de dobradiças.
-Está alguém em casa? - Perguntou em voz alta, enquanto avançava lentamente para o interior.
-Quem pergunta? - Respondeu do fundo de uma das divisões uma voz masculina, grave e forte, mas surpreendente e inesperadamente imatura. - Odeio ser incomodado.
-O meu nome é Seishin Kuroi. - Disse, procurando o sítio de onde a voz saía. - Venho de fora à procura de um médico e indicaram-me esta casa.
-Era o que me faltava, um estrangeiro. Aqueles estúpidos nunca param de me mandar pessoas, ainda há três meses tive que tratar de um tipo que perdeu um braço. Já era altura de arranjarem um médico e me deixarem em paz.
Finalmente, o outro revelou-se à porta de um quarto.
Era um rapaz não muito mais velho que Kuroi, de estatura média e que não aparentava ser muito mais forte que qualquer adolescente da sua idade. Tinha o cabelo azul muito escuro, quase preto, e os olhos de um tom lilás também azulado. Trazia vestida uma camisola ocre de linho grosseiro, com a gola alta e toda ela muito larga, e umas calças castanhas dobradas abaixo do joelho sobre umas botas pretas. O seu olhar era gélido e intimidatório, mas não se assemelhava em nada à figura assustadora que Kuroi tinha em mente.
-Não sou estrangeiro. - Corrigiu Kuroi. - Nasci em Shinai, a Leste daqui.
-Estou a ver... com esse apelido, presumo que sejas um mestiço. Já agora, o meu nome é Luke d'Evans.
-É um prazer conhecer-te. - Afectou o mais novo, tentando sorrir enquanto lhe estendia uma mão.
-Não posso dizer o mesmo. - Respondeu rispidamente o outro, indiferente. - Entra neste quarto e tira a camisola. Vou preparar-me para fazer um exame rápido.
Kuroi assentiu, indignado com a atitude do outro. Esperou que Luke regressasse sentado numa cama simples e dura, o que não demorou muito. Poucos minutos depois, este voltava com uma selha cheia de água e as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Pousou a selha no chão e fez-lhe sinal para que se deitasse.
-A ferida é interna na zona do abdómen, certo? - Perguntou.
-Sim! Como é que...
-Voz tremida e o reflexo inconsciente de apertar essa zona com os braços ao andar.
-Impressionante! Nunca vi ninguém com uma capacidade de leitura tão extraordinária! - Comentou Kuroi, abismado com a dedução do outro.
-Tens visto muito pouco. Mudando de assunto, alguma vez viste uma técnica de cura por água?
Kuroi abanou a cabeça negativamente.
-Boa, era o que me faltava. Um novato. - Desabafou Luke. - Basicamente, assim que eu começar não respires, não te mexas e não fales. Tenta manter o corpo descontraído. Vou passar alguma energia mágica através desta água para o teu corpo, primeiro para localizar o problema e uma segunda vez para o resolver.
-Energia mágica... és um feiticeiro?
-Uau, afinal ainda há quem saiba que existimos. - Ironizou o outro, agachando-se junto da selha. Com um movimento rápido das mãos, fez erguer da água uma esfera líquida e ligeiramente irregular, que pairava acima da palma da sua mão direita. - Vou começar, prepara-te.
Após proferir estas palavras, ergueu a esfera junto da cama ao nível dos seus olhos e lançou-a repentinamente contra o peito de Kuroi.
O rapaz teve a sensação de que iria ficar encharcado assim que a água o atingisse, mas em vez disso sentiu uma onda de energia gélida penetrar a sua pele e espalhar-se até às extremidades do seu corpo. Sentiu-se desconfortavelmente cheio, mas controlou-se para não se mover. Repentinamente, a energia começou a retrair-se como uma maré em direcção ao ponto de origem, e o corpo expeliu a água em forma de pequenas gotas que se voltaram a unir sob a mão do feiticeiro.
Ao vê-lo voltar a colocar a água na selha, Kuroi reparou que a sua expressão entediada se tornara numa expressão perturbada.
-Como é que... fizeste isto? - Perguntou o feiticeiro.
-Uma rixa. - Explicou o rapaz, sentando-se na cama. - Fui atingido com um soco e no dia seguinte, ao acordar, comecei a sentir dores que foram piorando.
-Seishin... - Começou Luke, fitando-o pela primeira vez nos olhos. - ...Isto não é uma hemorragia comum. O que eu encontrei com este exame foram vestígios de energia de Terra, poder mágico na sua forma mais pura. Consigo eliminar essa energia e reparar os danos, mas vai ser extremamente doloroso e nem eu posso dizer quantas sessões serão necessárias até que a cura seja total.
"Magia de Terra...", pensou Kuroi para consigo. "Como é possível que o Genji, o mais fraco de todos nós, já ter dominado o seu alinhamento elemental a este ponto? O que se passa aqui...?"
-Hey, mas estás a ouvir-me ou quê? - Gritou Luke, sacudindo-o por um ombro com uma expressão de indignação.
-Desculpa, estava a pensar numa coisa. O que disseste? - Balbuciou o rapaz de cabelo castanho, atrapalhado.
-Raio do rapaz... Estava a perguntar se queres fazer já a primeira fase. Vai tornar o processo de cura mais rápido, mas também é bastante debilitante pelas dores que causa.
Kuroi assentiu, determinado.
-Já cheguei até aqui, não é altura para recuar. Tenho amigos que contam comigo para os proteger, e não é nestas condições que o farei.
-Não esperava menos de um Sucessor. - Rematou o mais velho. - E sim, também me apercebi disso.
Kuroi sentiu um arrepio, encolheu os ombros e voltou a deitar-se. Em menos de meia hora, Luke d'Evans lera-o completamente. Não podia permitir que se espalhasse tão cedo que era um Sucessor de Tyfar, mas naquele momento o seu segredo e a segurança de todo o grupo estavam nas mãos daquele feiticeiro. Tinha de confiar nele.
-Vou começar. Podes respirar desta vez, mas não te movas seja qual for o grau de dor que sintas. Vou ter de controlar a água no teu corpo para libertar os pontos afectados pela energia, e é um processo muito delicado. Devo demorar cerca de uma hora, a julgar pela tua estrutura celular.
-Estou pronto.

***

-É muito estranho o Kuroi ainda não ter chegado. Acham que aconteceu algo?
Sochin fitou Ken'ichi, que se sentava encostado à cadeira com os braços cruzados no lado oposto da mesa.
-Conhece-lo melhor que nós. - Respondeu. - É o teu meio-irmão.
-Sim, tens razão... - Constatou o mais velho. - Da forma como o conheço, é bem possível que se tenha perdido. Não importa, há-de voltar.
-Mas vocês importam-se de mudar de assunto? Já não vos consigo ouvir falar nele. - Resmungou Makoto, que estava sentado entre ambos e debruçado sobre o tampo da mesa.
-Vais dizer que não estás preocupado? Está a demorar tanto tempo...
-Ele sabe tomar conta de si mesmo, ao contrário de mim. - Disse o rapaz rispidamente, levantando-se da cadeira. - Vou dar uma volta e apanhar ar fresco. Se não voltar até anoitecer, muito provavelmente tive alguma atitude imatura e meti-me em sarilhos, e vou precisar de uma ama-seca que me vá resgatar das garras de algum bando de criminosos.
-Nii-chan...
O loiro sorriu tristemente e enterrou as mãos nos bolsos.
-Estava a gozar. Só preciso de estar um pouco sozinho, pôr as ideias em ordem. Não se preocupem comigo.
Tanto a rapariga como o mais velho suspiraram de alívio.
-Até logo, então. - Disse Ken'ichi.
Sochin não proferiu uma palavra, fitando algum ponto no chão com melancolia. Quando Makoto saiu, voltou a erguer o olhar.
-Andam os dois às cabeçadas na parede. - Desabafou o mecânico. - Já começa a irritar.
-Ken'ichi-san, o que achas que o Kuroi-kun estará a pensar? Ele disse-me antes de nos separarmos que tudo se resolveria na altura certa, mas quanto mais tempo passa mais tensão existe entre eles... Davam-se tão bem, nem parecem os mesmos!
-Eu sei. O Kuroi está a agir de forma muito diferente, nem parece dele. Tenho a certeza que, no fundo, também está muito em baixo. Já o teu irmão parece que vai explodir.
A rapariga assentiu tristemente.
Durante alguns minutos, o silêncio tomou conta da pequena mesa de bar da estalagem.
De repente, no meio dos sons de fundo, ouviu-se um abrir e fechar da porta de entrada. Ninguém pareceu reparar em algo tão comum naquele lugar, mas os dois amigos voltaram-se de imediato.
Kuroi juntava-se a eles, pálido e ligeiramente trémulo.
-Yo. - Disse, sentando-se no chão junto a uma cadeira vazia.
-Não pareces muito melhor. - Disse o mais velho. - Não encontraste ninguém?
-Pelo contrário. Mas ainda não estou curado, vai demorar o seu tempo. O primeiro tratamento foi apenas... desagradável.
-Que tipo de médico existe num mundo como este? - Perguntou Sochin, já nem se dando ao trabalho de estranhar a aversão do rapaz a cadeiras.
-Um tipo estranho. - Disse Kuroi, fazendo depois uma pausa. - Vejo que o Makoto não se dignou a esperar que eu voltasse. Não o censuro, no lugar dele eu também não me falaria.
-Já decidiste alguma coisa em relação a esse problema? - Atirou o mais velho para o ar.
-Já sei precisamente o que fazer, e era sobre isso que queria falar convosco agora que ele não está aqui.
Os outros dois voltaram-se para o rapaz, assentindo.
-Primeiro que tudo, é imperativo que ele não saiba de nada nem antes nem depois. Decidi pô-lo à prova. Ken, lembras-te do Daisuke?
-Como poderia esquecer... mas que tem isso a ver com o nosso problema? - Respondeu o meio-irmão, sem compreender.
-Já passou muito tempo, mas recentemente tenho tido um pressentimento de que ele está a tentar dizer-me algo... Acho que ele quer que o use.
-Usar? Mas quem é esse Daisuke? - Interrompeu Sochin, confusa.
-Um... velho amigo. - Respondeu Kuroi, sorrindo. - Bem, vamos organizar-nos. Sochin, preciso que encontres o Makoto e o convenças a ir contigo à praça principal da cidade daqui a umas horas. Ken, preciso que venhas comigo procurar algumas coisas na cidade. Desculpa pedir-te isto, mas se encontrarmos alguém, não estou em condições de me defender sozinho. Também preciso de aproveitar e arranjar outra roupa, esta já não está em condições de ser usada por muito mais tempo.
-Mas importam-se de me explicar que plano é esse? Não estou a perceber nada! - Desabafou a rapariga.
-Já vais perceber. O que eu quero testar é... - Respondeu o rapaz, afastando dos olhos uma madeixa de cabelo castanho. - A capacidade do teu irmão para se defender efectivamente numa rixa contra um desconhecido. Isso... ou se tem a sabedoria suficiente para a evitar.

Posted by Seishin Hermy @ 15:39
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Capítulo XV: Nascimento e morte. Decisão.


Cidade de Shinai, Dreffel. Um vulgar dia de Outono sem nada de especial ou empolgante para um rapazinho, de seus sete anos, cabelo castanho e olhos verdes, que vagueava pelos arredores em busca da próxima refeição.
-Corres muito depressa, não é justo! - Ouvia uma criança gritar. Um grupo de quase uma dezena reunia-se na praça e brincava sob o olhar enfadado de Kuroi, que se acomodava sobre um caixote de madeira à porta de uma loja.
-Pst, miúdo, sai daí. - Murmurava o proprietário, embaraçado.
Ao ver-se em confronto directo com o olhar perfurante do rapaz, deu um suspiro e tomou nas mãos uma maçã.
-Se saíres de cima do caixote, dou-te isto.
O pequeno logo pulou para o chão com desenvoltura. O truque de se sentar em frente das lojas nunca o deixara ficar mal.
Começou a afastar-se, saboreando a única refeição do dia, quando ouviu um gritinho vindo do grupo de crianças.
-É O FANTASMA!!!
Virou-se. À saída para uma das ruelas secundárias, avançando a medo, aproximava-se deles um rapazinho de grandes olhos azuis e cabelo totalmente branco. O rosto, única parte do corpo que não estava coberta por agasalhos, era também muito pálido.
-Vai-te embora daqui, assombração! - Gritou outro.
Uma rapariga baixinha, talvez a mais nova do grupo, pegou numa pedra do chão e arremessou-a contra o recém-chegado. Os outros juntaram-se a ela e cada vez mais eram as pedras que o atingiam. O pequeno, importante, caiu sobre os joelhos, protegeu a cabeça com os braços como podia e soltou um gemido de dor e angústia.
-Parem imediatamente com isso. E tu, põe-te a andar daqui. Depressa.
As pedras haviam cessado e o albino levantou o olhar. À sua frente, Kuroi estava de pé com os braços
abertos, protegendo-o com o seu corpo.
-Quem atirar a próxima pedra vai ter de se haver comigo.
-Não digas disparates e sai da frente! - Disse o mais velho do grupo, recomeçando a ofensiva.
Não acertou em nenhum dos dois rapazes, mas deixara clara a sua intenção. Não seria um miúdo da rua a impedi-los.
De imediato surgiu uma aura negra semelhante a fumo em redor dos seus pés. Subiu rapidamente pelo corpo, imobilizando-o, fê-lo desmaiar e desvaneceu-se no ar.
-Mais alguém?
Outro rapaz, um pouco mais novo e com ar de arruaceiro, pegou no corpo inanimado do amigo e colocou-o às costas.
-Vamos sair daqui. - Ordenou ao resto do grupo com voz trémula. - Este tipo não é normal.
Sem mais trocas de palavras mas muitas trocas de olhares, todos desapareceram num ápice.
-Mas... mas porquê? - Perguntou o albino, falando pela primeira vez. - Porque é que me ajudaste?
-Porque não acredito em fantasmas.
O rapaz esboçou um sorriso tímido.
-Obrigado.
-Não tens nada que agradecer. E não devias andar com esta gente. Ninguém merece ser tratado assim. - Continuou Kuroi.
-Sei perfeitamente disso, mas até eu preciso de estar com alguém. A minha família só cuida de mim por pena e na maior parte do tempo finge que eu não estou lá. Devem pensar que sou um erro.
-E tu acreditas nisso.
O pequeno desviou o olhar rapidamente.
-Não és humano?- Murmurou, tentando mudar de assunto.
-Sou mestiço. - Respondeu Kuroi.
-Então... És igual a mim! A minha mãe é humana e o meu pai é de cá!
Kuroi sentiu um sobressalto com estas palavras. "És igual a mim".
-Souka... Podia jurar que eras um humano puro com albinismo. - Respondeu, abstraído.
-Tenho este aspecto porque os genes dos meus pais eram incompatíveis. Dizem-me que é uma doença.
-Uma doença...?
-Não te assustes, isto não se pega. Mas é irrelevante. - Explicou o outro, um pouco embaraçado.
Kuroi afastou dos olhos uma madeixa de cabelo castanho.
-De qualquer modo, sou imune a quase todas.
O albino sorriu. Sentia-se estranhamente feliz por ter encontrado alguém que não parecia importar-se com a sua aparência.
-Eu... já te vi por aqui, sei que não tens onde viver. A minha casa é muito grande e podes ficar por lá, se quiseres.
-Isso é demasiado. Eu só fiz o que estava correcto fazer, nada mais.
-Por favor! - Insistiu o rapaz. - Pensa bem, não tinhas de voltar a passar fome. E além disso... gostava muito de voltar a falar contigo.
O outro levantou os olhos para o céu alaranjado de fim de tarde.
-Não quero ser um incómodo para ninguém.
-De maneira nenhuma! A nossa produção chega e sobra para sustentar mais um, e se isso te deixar com a consciência mais tranquila o meu pai está à procura de mais ajudantes para os trabalhos leves. A minha família é produtora de vinha. Podes ajudar a troco de estadia, e assim ficamos todos a ganhar!
-Isso seria óptimo! - Exclamou Kuroi. - Tens mesmo a certeza?
-Claro que sim! - Respondeu o outro, com um aceno de cabeça. - Não te vais arrepender!
Nesse momento, Kuroi apercebeu-se pela sua expressão que aquele tímido rapazinho, que demonstrava uma aparente dificuldade em lidar com a aceitação, era na verdade um pouco mais velho que ele.
-Agora lembrei-me... ainda não sei o teu nome! - Prosseguiu o rapaz. - Como te chamas?
-Seishin Kuroi. - Respondeu.
Depois, achando que deveria dizer algo mais, acrescentou:
-E tu?
-Ryo Daisuke.

***

Quase um ano havia passado desde que Kuroi conhecera Daisuke. Vivia desde então num anexo da casa da família Ryo, onde fazia pequenos serviços a troco de comida e tecto. Era de longe o mais novo de todos os ajudantes, mas extremamente prestável. Afinal de contas, a maior parte dos trabalhos eram fáceis para ele graças à sua força.
Preparava-se para mais um dia de colheita na vinha quando a porta do anexo se abriu de par em par.
-Kuroi, Kuroi!!! Tenho boas notícias!
Era Daisuke que entrava, ofegante. Crescera muito no espaço de um ano, o bastante para que fosse impossível confundi-lo com alguém mais novo. Já não se fazia sentir o calor do verão mas ainda se apresentava descalço, com uma camisola leve e calções.
-Acordaste cedo hoje! - Admirou-se o mais pequeno, enfiando pela cabeça uma camisola. - Que se passou?
-A colheita está bastante adiantada este ano, por isso hoje estás dispensado! - Respondeu Daisuke com um sorriso rasgado.
-Genial! Qual é o teu plano?
O rapaz pensou por momentos.
-Gostava de ir à cidade. Desde que vieste para cá que não saio da herdade dos meus pais.
-À cidade... Tens a certeza?
O albino assentiu.
-Já não me assusta a reacção das pessoas. Se estiveres comigo, sei que sou capaz de enfrentar tudo.
-Não me considero assim tão motivador. - Respondeu Kuroi, embaraçado. - Mas se tu o dizes...
Antes de sair passaram pela cozinha da casa.
A mãe de Daisuke, uma bonita mulher de longos cabelos negros, entregou a cada um deles uma pequena mala com uma caixa de comida e um cantil de sumo de uva.
-Tenham cuidado, meninos! - Aconselhou.
-Claro, mãe! Já sabemos! - Respondeu o mais velho com um sorriso de troça, puxando o amigo por um braço.
Kuroi sentia-se feliz. Havia sido acolhido pelos Ryo como um outro filho, e Daisuke era como um irmão. Parecia ter-se tornado noutra pessoa muito diferente desde aquele dia, estava mais alegre e confiante, e até a atitude dos seus pais em relação a ele mudara graças a isso. Conseguiam finalmente vê-lo como uma criança igual a tantas outras da sua idade.
Olhou para o cantil que a mulher lhe dera. Era muito comum darem-lhe sumo de uva ao lanche, visto que a família cultivava vinha, e nunca se cansava. Achava-se capaz de beber sumo de uva para o resto da vida.
O dia passou estranhamente depressa. Ninguém se atrevera a provocar Daisuke com Kuroi por perto, e por isso os dois divertiram-se a passear pelas ruas da cidade.
No entanto, ao fim da tarde, o mais velho sentiu uma tontura fortíssima. Tentando manter-se em si, chamou o amigo.
-Kuroi, não estou bem. Preciso de voltar para casa.
O outro acenou com ar preocupado.
-Que se passa?
-Estou a sentir-me fraco. Só isso.
Com algum esforço, conseguiram regressar.
A mãe de Daisuke foi ajudá-lo a deitar-se enquanto Kuroi esperava à porta do quarto por mais notícias, mas quando a mulher saiu do quarto parecia abalada e não proferiu uma palavra. O rapaz entrou e foi sentar-se junto do amigo.
-Como estás agora? - Perguntou, preocupado.
O rapaz balbuciou qualquer coisa imperceptível devido à voz fraca e arrastada, aninhou-se na cama e não respondeu mais nada. Adormeceu com uma expressão de sofrimento estampada no rosto pálido.
Ao passo que um dormiu durante toda a noite, o outro não foi capaz de fechar os olhos por um momento. Já vira Daisuke doente e mesmo acamado, mas nunca durava tanto tempo. E estava a ser demasiado violento desta vez.
Os primeiros raios de sol entraram lenta e pesadamente pela janela, anunciando o nascer do dia.
A algum custo, o mais velho conseguira acordar e manter-se consciente. No entanto, não parecia haver melhorias no seu estado. Tentava dizer algo.
-Daisuke, não te esforces... - Pediu Kuroi, lutando contra o sono.
-Por favor, deixa-me falar. Há algo que nunca te contei... - Murmurou o outro.
-O que queres dizer? O que é que não me contaste?
-A minha doença... bem... é degenerativa. Sempre que atinge um órgão, é irreversível. Ontem tentei dizer-te depois de a minha mãe sair, mas não tive forças...
-Mas o que...
Kuroi não sabia o significado de "degenerativa". Era apenas uma criança da rua sem escola nem experiência. Mas compreendeu que algo de muito errado se passava.
-Temo que ontem tenha começado a atingir o coração.
Estas palavras foram como um soco no estômago para o rapaz. De imediato percebeu tudo.
-Não, não pode ser. Não pode... Diz-me que estás a mentir!!!
Daisuke desviou o olhar para o tecto, pesarosamente.
-Já há mais de oito meses que se esperava esta evolução. O único mistério é mesmo como sobrevivi até agora. Mas tudo tinha de acabar um dia, até a minha sorte...
-Não pode ser! NÃO!!!
-Já me custa a falar, sinto uma pontada mesmo forte no peito. É insuportável.
-DAISUKE, PÁRA COM ISSO! ESTÁS A ASSUSTAR-ME! TENHO A CERTEZA DE QUE VAIS FICAR MELHOR E SOBREVIVER!!!
A mão fria e fraca do rapaz agarrou a mão trémula e quente de Kuroi.
-Não vale a pena tentares iludir-nos aos dois. Só te peço que ouças o que te vou dizer. Eu quero agradecer-te.
O mais novo engoliu em seco. Tentava a todo o custo não chorar, mas os seus grandes olhos verdes começavam a transbordar em lágrimas.
-Agrade...cer-me?
-Há um ano atrás, todos teriam ficado indiferentes. Para mim seria como adormecer durante muito tempo. No entanto... - Suspirou. - ...agora que chegou o momento não consigo pensar assim. Obrigado, meu amigo. Por teres sido uma outra família... e por me fazeres, neste momento, desejar permanecer vivo mais do que qualquer outra coisa.
Kuroi respirava fundo para não começar a soluçar.
-IDIOTA, NÃO ME POSSO CONSIDERAR AMIGO DE NINGUÉM SE DEIXAR QUE OUTRA PESSOA IMPORTANTE PARA MIM MORRA À FRENTE DOS MEUS OLHOS!!!
Colocou as mãos nos ombros de Daisuke e segurou-o com força, deixando de se preocupar em esconder o choro que teimava em sair. Concentrou-se, e nas suas mãos surgiu uma aura negra em forma de chama descontrolada.
-Por favor aguenta só um pouco! Com o meu poder, eu acho... eu tenho a certeza que te posso salvar!!!
A escuridão tornou-se em luz e preencheu o quarto com um brilho ofuscante.
-Não feches os olhos por nada!
Daisuke sentia uma sobrecarga no seu corpo frágil, que não estava preparado para receber o mesmo tipo de energia com que o de Kuroi lidava, mas não disse nada e nem sequer gemeu. Do fundo do seu coração, queria acreditar no amigo até ao fim. Faria o seu segundo milagre.
Sabendo que chegara o fim, fechou os olhos e pronunciou as suas últimas palavras:
-Obrigado.
A luz estilhaçou-se como um vidro, em mil pedaços ínfimos que choveram sobre o chão. No ar, apenas uma sufocante sensação de vazio. O corpo do rapaz desaparecera.
Kuroi caiu sobre os joelhos, em choque.
-Daisuke... não é possível... não...
Os estilhaços de luz juntaram-se em seu redor e poisavam sobre si, desaparecendo sobre ele como lágrimas que secavam.
Parte de si desejava gritar a plenos pulmões, libertar a tristeza e a frustração. Mas um novo lado que surgia no seu interior refreava-lhe os nervos e cessava a sua angústia. Transmitia-lhe uma inadequada paz interior que fazia esquecer tudo o resto. De certa forma, tinha a sensação de que nada mudara. Ryo Daisuke permanecia vivo através e dentro de si.
"O que eu fui fazer... não queria nada disto! Só queria salvá-lo! O que me vai acontecer agora?"
Limpou os olhos húmidos com o braço e dirigiu o olhar para a porta. Estava aberta e de pé, estarrecida, a mãe de Daisuke fitava-o com olhar incrédulo.
Não sabia desde quando é que ela estaria a assistir, mas podia ver pela sua expressão que não ouvira a conversa que tiveram.
Pensou em dizer algo como "não é o que possa estar a pensar, acalme-se", mas sabia perfeitamente que era inútil dizer fosse o que fosse. Diante de si estava uma mãe que acabara de perder o filho.
-Lamento muito. - Disse, sem que a voz lhe saísse da garganta.
-És um monstro. - Respondeu ela, com a voz embargada pelo choque e pela tristeza.
Com estas palavras, Kuroi sentiu impotente que o que restava do seu mundo acabara de se desmoronar.
Argumentar só iria agravar a ferida no coração daquela mãe que também fora a sua, só queria desaparecer. Esvair-se no ar e sair dali, recomeçar tudo e apagar as memórias que deixara nos últimos momentos e que o magoavam mais do que a ninguém.
Queria partir, para bem longe dali...
Pestanejou lentamente. Já não estava dentro do apertado quarto, nem em nenhum lugar que conhecesse. Nos seus ouvidos ecoava o choro desgostoso da bela mulher de cabelos negros, entre a tristeza e o desespero, mas já não a podia ver.
Agindo quase por instinto, levantou um braço. A ponta dos seus dedos tocou uma superfície distorcida no ar, fria e inquietante.
Um arco tomou forma à sua frente, convidando-o a passar.
Mentira. Era ele que suplicava ao arco que o deixasse atravessá-lo.
Naquele mundo nada mais lhe restava.
Só queria fugir e esquecer, não importava para onde.

***

Acordou repentinamente.
Já era de manhã. Estava a bordo do navio que partira de Kyrial na véspera, quase a tombar da cama, com os lençóis no chão. Ouvia um chiar irritante junto ao ouvido esquerdo.
-Almoço, deixa-me em paz! Já estou acordado! - Resmungou, enfiando os pés nos ténis trocados.
Suspirou e voltou a calçá-los correctamente. O pequeno falcão saltou-lhe para o colo, tentando atrair a sua atenção.
-Não olhes para mim assim. Nem desconfio o que comem os falcões.
Voltou a chiar insistentemente, sem resposta, e voou ofendido pela janela entreaberta.
O rapaz tinha mais com que se preocupar.
Teria de tomar uma decisão difícil e, quanto mais depressa o fizesse, melhor. A recordação dessa noite só viera agravar o seu humor.
Fechou a porta da cabine atrás de si. Não poderia adiar por mais tempo o que decidira.
Foi encontrar Makoto e Sochin no exterior, sentados nas escadas do convés.
-Senpai, bom dia! - Disse o loiro, tentando sorrir. Ainda estava enjoado pelo balanço do barco.
-Bom dia. - Cumprimentou Kuroi, abstraído.
Sochin acenou.
-Vou comer qualquer coisa. - Disse, levantando-se.
-Makoto, preciso de falar contigo. - Chamou o mais velho.
-Uh... claro! - Respondeu o outro. - Que se passa?
-Vou ser o mais directo possível... Assim que chegarmos a terra, tu e a tua irmã devem abandonar Dreffel. Sem demoras.
-O QUÊ? Estás a gozar, certo?
O rapaz acenou negativamente.
-Deixar-vos acompanhar-me foi um erro. Depois de ver a tua atitude anteontem apercebi-me de que não posso responsabilizar-me por vocês dois. Só poria em perigo as nossas vidas e o meu objectivo.
-Que estás a dizer...
-És um irresponsável, Makoto. Não tens noção do perigo e falta-te a maturidade para ponderar calmamente as situações. Ainda por cima com as tuas capacidades de combate actuais, podias ter morrido!
-Mas não morri! - Exclamou o mais novo, furioso.
-Ias morrer se eu não tivesse chegado a tempo!
Makoto aproximou-se de Kuroi, cada vez mais enervado.
-Caso não tenhas reparado, posso tomar conta de mim sem a tua ajuda!
Kuroi afastou-o com uma forte cabeçada.
-Nota-se! Nota-se perfeitamente!
-O facto de seres o líder do grupo não te dá o direito de escolher por nós!
-O facto de ser o líder do grupo dá-me o dever de vos manter A SALVO!
-Não arranjes desculpas esfarrapadas, eu responsabilizo-me por tudo o que me possa acontecer! Se o teu problema é outro, di-lo na cara!
-Ai é isso que achas? Pois bem, se é isso que queres ouvir, já não te aguen...
-PAREM OS DOIS COM ISSO, JÁ!!!
Sochin regressara a correr ao ouvir os gritos e separou-os. Chocava-a ver os dois amigos discutir daquela forma.
-Hey, diz o que ias a dizer! Continua se tiveres lata! - Desafiava ainda o mais novo.
Kuroi suspirou e baixou o olhar.
-Makoto, se gostas assim tanto da tua irmã aprende a dar-lhe ouvidos quando ela tem razão. Esta conversa já foi longe demais.
Voltou as costas e deixou-os, parando apenas ao passar junto à rapariga, colocando a mão no seu ombro.
-Lamento que tenhas tido de assistir a isto. - Murmurou.
Esta fitou-o até entrar dentro da cabine e bater com a porta.
-O que foi isto? - Perguntou com voz fraca.
Makoto olhou para o chão com uma expressão cerrada.
-Vais ficar feliz com o assunto da discussão. Ele quer que o deixemos e voltemos ao nosso mundo.
Sochin ficou sem resposta. Não era, de facto, minimamente próxima de Kuroi. Na verdade, por vezes ele irritava-a. Mas sabia como estar com ele era importante para o seu irmão e aprendera a aceitar a situação com o tempo. Começava mesmo a sentir-se bem junto daquele pequeno grupo.
-Não, não estou feliz. Mas também não percebo o porquê de estarem quase a pegar-se à pancada, logo vocês os dois.
-Não estás a ver, Sochin? É tal e qual como antes. Quando parece que tudo corre bem, há sempre alguma desculpa para me mandarem embora quando já não sou preciso. Pensei que o Senpai fosse diferente do resto das pessoas. Como é que pude ser tão parvo?!
A mais nova suspirou. Apesar de Kuroi ser uma pessoa difícil de compreender, sabia que ele não era assim.
-Vou tentar falar com ele.
Makoto voltou a sentar-se nas escadas e encostou a cabeça ao corrimão de madeira com violência. Fitava o mar sem uma palavra, de semblante carregado e ainda com algum enjôo.
Ken'ichi saía desse momento da cabine que partilhava com o meio-irmão.
-Que se passou? O Kuroi entrou ali com uma expressão muito séria e não me responde!
-Discutiu com o meu irmão porque quer que eu e ele regressemos ao nosso mundo. - Respondeu Sochin.
-Então foi isso... ele falou-me nessa possibilidade, mas nunca pensei que tivesse coragem de levar a ideia avante.
-Vou tentar falar com ele agora, para esclarecer umas coisas. Sei que é pedir muito, mas podes ficar com o meu irmão e tentar acalmá-lo? Tenho medo que faça algum disparate.
-Não há problema. Ele deve dar-me ouvidos.
A rapariga acenou com um sorriso triste no rosto e continuou para a cabine.
Abriu a porta silenciosamente e esperou que os seus olhos se habituassem à escuridão. Kuroi fechara as janelas ao entrar.
Estava sentado no chão, junto a um canto, fitando algum ponto no tecto. Apertava o estômago com os braços, esboçando uma expressão de dor.
-Está a doer muito? - Perguntou a rapariga, mas arrependeu-se a seguir. Talvez tivesse feito melhor em ficar calada.
-Parece que estou a ser estripado vivo. - Respondeu o rapaz com voz grave e surpreendentemente calma.
-Estava a falar do teu corpo.
-Ah, isso. Por vezes ainda dói um pouco, mas só um médico saberá dizer se é grave.
-Kuroi-kun...
-Não perguntes nada. É o melhor para vocês por agora. O teu irmão ainda é muito impulsivo e imaturo para seguir uma viagem como a que nos espera quando chegarmos ao continente. Talvez se já fosse um, dois anos mais velho... Mas 14 anos é muito pouco para alguém como ele.
-Eu sei que o meu irmão às vezes faz figuras de idiota e se porta como uma criança, mas acho que essa é a maneira de ele demonstrar que se importa com as pessoas. Pode não parecer, mas ele sabe comportar-se como um adulto se for necessário.
Kuroi queria ser sincero, desabafar o seu medo, explicar que poderia ser demasiado arriscado dar ao rapaz uma segunda oportunidade. Mas, como líder do grupo, era o último que poderia dar parte fraca. A sua hesitação afectaria todos.
-Não posso arriscar que aconteça algo de mais grave a um de vocês. - Disse finalmente.
-Sabes, o que o meu irmão ficou a pensar é que não o vês como um amigo e que te fartaste dele. Já passou por muito, e isso afectou a confiança dele.
-Não me compete saber pormenores da vossa vida, por isso não te esforces em dizê-los. Só me custa que ele pense que isto foi uma decisão fácil. Ele age como se pudesse defrontar qualquer um, quando ainda está a muitos treinos de distância de me alcançar sequer.
-Quer afirmar-se, junto de ti e de si próprio. Tu restauraste muita da confiança dele quando se tornaram amigos. Acho que não quer perder isso.
-Sochin, posso perguntar-te apenas uma coisa?
A rapariga acenou afirmativamente, intrigada.
-Diz-me apenas... - Prosseguiu o mais velho - ... qual é a TUA posição em relação a tudo isto. Estás a defender o ponto de vista do Makoto, mas sempre que te vejo pareces estar aqui por obrigação.
Sochin fitou o chão, embaraçada.
-No início não queria nada disto, é verdade. E também não simpatizava muito contigo, mas queria ficar junto do meu irmão. Deves calcular como fiquei quando nos contaste que não eras humano.
-Era mais que óbvio. Gostava de vos ter dito desde o início, mas pensei que iriam reagir mal ou que não iam acreditar.
-É compreensível. Mas se queres saber a verdade... nos últímos tempos mudei de opinião. Ganhei confiança em ti e até começo a gostar deste mundo.
-É bom saber isso. Nesse caso, o problema é o teu irmão, estou enganado?
A rapariga assentiu.
-Ele é muito influenciável e assusta-me um pouco pensar que se pode prender mais a ti como lutador do que como pessoa. Não quero... Não quero que se torne diferente, ele não é uma pessoa violenta. Mas ao mesmo tempo... quero estar aqui junto dele. É muito bom vê-lo tão entusiasmado e alegre. O simples facto de se estar a relacionar com outras pessoas é quase um milagre.
-ESTE MAKOTO tinha problemas com isso?! Ninguém diria.
-É muito bom fingidor, em todos os sentidos... Mas por favor não sintas pena dele, não há nada que ele odeie mais.
-Sinto mais pena por mim próprio, por não saber lidar com um miúdo e acabar por magoá-lo. É patético.
-Ainda podes voltar atrás e dar-lhe uma hipótese, ninguém vai achar que és um fraco por isso. Mesmo que nunca o demonstre, o meu irmão sabe o que faz. Podes até ficar, talvez... surpreendido.

Posted by Seishin Hermy @ 10:33
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