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Capítulo IX: Dreffel


-Bom diaaa!!!
Makoto abriu lentamente os olhos, estremunhado.
Sochin sorria, abrindo as cortinas repentinamente.
-Mas o que é que pensas que estás a fazer? - Reclamou o rapaz, sentando-se na cama e despenteando com a mão o cabelo loiro. - Que horas são?
-Seis e meia da manhã. - respondeu a irmã mais nova, inocentemente,
O mais velho olhou, perplexo, para o despertador de números luminosos. Eram, de facto, seis e meia.
-Sochin...
-Sim, maninho?
-Posso saber porque carga d'agua é que me vieste acordar a esta hora? - Disse, irritado.
-Tchi, que mau humor. - Disse a rapariga.
"Querias que estivesse de bom humor depois de ser acordado a estas horas?", pensou Makoto para consigo.
-Na verdade, também não sei. o Kuroi-kun veio pedir-me que te acordasse.
Com um suspiro, o rapaz levantou-se e enfiou os pés nos ténis.
Encontrava-se numa espécie de arrecadação, onde tinham sido enfiadas todas as coisas que estavam no chão no dia anterior. Tinha dormido numa cama desmontável, arranjada à última da hora para ele e para a irmã. Sochin, que acordava sempre muito cedo, tinha-o deixado a dormir sozinho durante a manhã.
Aos tropeções, entrou sem bater no quarto de Ken'ichi.
Este acabava de apertar as sapatilhas sentado no sofá, mas ao seu lado, Kuroi ainda estava a dormir no colchão dobrável.
-Senpai! Qual é a ideia de me mandares levantar e continuares aí deitado? - Exclamou Makoto, indignado. Tirou uma sapatilha e atirou-a à cabeça de Kuroi.
-Hey! Quem é que mandou isso?! - Gritou este, sentando-se de um pulo no colchão e esfregando a cabeça. Quando viu Makoto, pegou no sapato pelos atacadores e arremessou-o contra ele.
-E já agora, bom dia para ti também. - Concluiu, tirando os lençóis de cima de si.
Sochin fazia um enorme esforço para não se desmanchar a rir.
-Só acordaste agora, Senpai...? - Perguntou o mais novo, voltando a calçar o ténis e remoendo por causa das dores na testa causadas pelo seu trajecto de vôo.
-Naturalmente. Aliás... o que é que estás a fazer levantado? Costumas ser o último a acordar.
Ambos desviaram então o olhar para Sochin, que assobiava divertidamente encostada à ombreira da porta.
-Um dia dou cabo daquela rapariga. - Murmurou Makoto.
-Se já acabaram a vossa luta de sapatilhas, posso perguntar quando é que pensam ir para Dreffel? - Interrompeu Ken'ichi, pondo-se de pé.
-Bom, já temos comida e água para algum tempo e os sacos com o que precisamos também estão prontos. Por isso, é quando quiserem. -Respondeu Kuroi.
-Posso dar uma opinião? - Pediu Sochin, levantando a mão e dando pulinhos no mesmo sítio.
-NÃO!!! - Responderam os rapazes em coro.
-Já que, por alguma razão, estamos todos levantados, sugiro que comecemos a procurar um sítio isolado para abrir o portal. - Disse ela, ignorando-os. - Dá um bocado nas vistas se desaparecermos à frente de toda a gente.
Kuroi acenou com a cabeça em sinal de concordância.

***

-Mas quanto mais vamos ter de andar até encontrarmos um espaço escondido fora da cidade? - Resmungou Sochin.
-Oh, está calada! - Exclamou Makoto. - A ideia foi tua, e além disso é o carro que está a fazer o trabalho todo!
-Há uma gruta na falésia perto daqui. - Indicou Ken'ichi, apontando para as rochas ao fundo da praia pela qual passavam. - Está interdita aos visitantes, por isso não nos devem ir chatear.
Makoto apertou nas mãos o volante e guiou o carro para fora da estrada, descendo a duna de areia até ao ponto em que se encontrava com o mar e a falésia. Voltada para a água, a entrada da gruta parecia não ter qualquer tipo de passagem.
-E agora, como entramos ali? - Perguntou.
-Avança por dentro da água, sempre junto à rocha. - Explicou o mais velho. - Deve haver uma plataforma por baixo da água.
Seguindo as indicações de Ken'ichi, logo se encontraram dentro da húmida caverna. Respirando de alívio, Kuroi e Sochin saíram do carro.
-Estás pronta? - Perguntou o rapaz, colocando-lhe uma mão sobre o ombro.
A rapariga acenou com a cabeça.
Lá fora, o vento soprava com força e as ondas desfaziam-se na entrada. Vivia-se entre eles uma atmosfera carregada de apreensão.
Sochin levou as mãos às têmporas, tentando concentrar-se. Uma brisa fresca invadiu a gruta e começou a rodopiar em redor de um ponto no ar que tremeluzia com um brilho azul. Atrás do ponto, a parede de pedra aparecia-lhes distorcida.
A luz expandiu-se rapidamente até formar um arco de passagem através do qual não viam mais do que algumas manchas pouco nítidas de cor.
-Wow. - Exclamou Makoto. - Como é que isto apareceu no meio do quarto e eu não reparei em nada?
Kuroi deu um passo em frente e estendeu a mão. Os seus dedos tocaram a superfície brilhante do portal e atravessaram-na. Alguns segundos depois, tinha desaparecido.
Ainda um pouco perplexos, os outros três entreolharam-se e Sochin voltou a entrar no carro. Makoto pisou o acelerador e todo o veículo, como que por milagre, atravessou o estreito portal.

***

Uma brisa morna envolveu os quatro amigos. Um pouco confusos, foram aos poucos habituando os olhos à claridade até serem capazes de olhar em volta.
À sua frente estendia-se um campo de ervas altas cortado por um caminho de terra batida que levava até uma entrada numa muralha ao fundo.
-Chegámos...? - Murmurou Makoto, largando o volante e observando do seu banco tudo o que o rodeava, curioso.
Kuroi assentiu.
-Aquela fortaleza é a cidade de Kyrial. - Replicou, dando um passo em frente. - Estamos numa ilha.
Sochin voltou-se para trás no seu banco e olhou para o portal que deixara aberto.
-Isto vai ficar assim? - Perguntou.
-Não te preocupes, ninguém o vai encontrar. - Respondeu Kuroi. - Dentro de algumas horas ele fecha-se. Isto, a menos que alguém além de nós passe por ele, o que o faz fechar.
-Se passarem pelo portal vêm parar ao mesmo sítio que nós? - Indagou Ken'ichi, analisando a estrutura luminosa com o olhar. Makoto acenou com a cabeça, também ele curioso com a resposta.
-Não tenho a certeza, mas acho que o local de chegada é aleatório. - Disse Kuroi. - Provavelmente ficámos juntos porque atravessámos com um intervalo de tempo muito pequeno.
Instantes depois, um clarão desviou a atenção dos quatro. O portal começava a fechar-se com um zumbido.
-Alguém está a passar! - Exclamou o mais novo, voltando-se de repente.
-Raios, fomos seguidos! - Praguejou Ken'ichi.
Saltou por cima da porta do jipe e apoiou-se numa mão ao cair. Depressa se recompôs e aproximou-se do irmão.
-Achas que são aqueles esquisitos que encontrámos no outro dia? - Perguntou.
-Tenho a certeza. São os únicos palermas obstinados o suficiente para nos seguirem depois da tareia que levaram.
Makoto e sochin suspiraram.
-Não desistem mesmo. - Disse a rapariga.
-Depois tratamos deles, ainda vão demorar a encontrar-nos. - Continuou Kuroi. - Agora temos de esconder o jipe para podermos dar uma vista de olhos pela cidade.
-Há centros comerciais por aqui? - Guinchou Sochin, com os olhos a brilhar de excitação.
Os rapazes evitaram ter um ataque de riso, entre pigarreios para disfarçar.
-Vamos a isto, então. - Disse Makoto. - Como é que escondemos o carro?
Kuroi pensou por momentos e depois apontou na direcção da fortaleza.
-Vamos colocá-lo junto da muralha e cobri-lo com um lençol. Depois pomos algum musgo em cima e ninguém desconfiará de nada. - Respondeu.
E assim fizeram. Pouco tempo depois, o enorme jipe parecia apenas mais um monte de musgo encostado à parede.
-Já podemos ir para a cidade agora? - Perguntou a rapariga, impaciente.
"Não tem remédio.", pensou Kuroi, sorrindo.
-Só mais um aviso antes de entrarem a correr... Mantenham-se juntos e tenham cuidado. Humanos não são muito bem-vindos aqui.
-Já calculava, depois do que aconteceu com o nosso pai e os outros. - Respondeu Ken'ichi. - Não te preocupes, maninho. Eu tomo conta destes dois.
-Oh, boa... uma ama-seca. - Murmurou Makoto. Sochin abafou um risinho.
Tentando não despertar as atenções, Kuroi guiou o grupo para dentro da cidade.
No interior da muralha, tornou-se bastante claro que já não se encontravam no mundo dos humanos. As construções, pequenas casas de pedra ou argila cobertas de cal com telhados de barro cozido, empilhavam-se ao longo de uma encosta. Na entrada, encontravam-se algumas oficinas de artesãos e carroças paradas com animais. As pessoas que passavam fitavam-nos com estranheza.
Eram muito semelhantes a humanos, mas alguns tinham tons de pele, olhos ou cabelo fora do comum. Outros possuíam marcas no rosto e no corpo ou mesmo orelhas pontiagudas. Usavam roupas simples e leves, caídas do corpo quase até aos pés, que faziam lembrar trajes medievais. No entanto, de vez em quando reconheciam algo que se assemelhava a uma t-shirt ou um chapéu de abas.
-Porque é que estão a olhar para nós? - Reclamou Makoto. - Os esquisitos são eles!
Foi impedido de continuar por um conveniente cotovelo que se lhe espetou na barriga antes que voltasse a abrir a boca.
-Não piores as coisas, ou ainda acabamos todos mortos com os teus comentários. - Sussurrou-lhe Kuroi.
-Mas para dizer a verdade, estamos a dar muito nas vistas. - Constatou Ken'ichi. - Devíamos arranjar roupas como as dos habitantes.
Kuroi acenou com a cabeça.
-Deve haver por aí um alfaiate. Amanhã procuramos a loja e arranjamos umas capas para cobrir a roupa.
-Sochin, que cara é essa? - Perguntou Makoto, voltando-se para a irmã.
A rapariga tinha um ar deprimido.
-Mas capas são muito simples! - Resmungou. - O que eu queria era comprar um vestido.
-Era só um exemplo! Podes comprar o que quiseres. - Explicou o irmão. - Não é, Senpai?
-Por acaso até... não. Tenho muito pouco dinheiro comigo.
Os restantes olharam para o chão, desanimados.
-Não estou a ver como é que vamos conseguir dinheiro. - Disse o mais velho. - Tudo o que trouxemos são Ari. Aqui usam-se pesos de ouro.
Os dois irmãos acenaram.
-Quando acabar a comida, como vamos viver? - Perguntou Makoto.
-Acalmem-se. Na minha antiga casa há um tesouro que dá para nos manter bem fornecidos durante anos. - Disse Kuroi, tentando sossegá-los. - Está tudo guardado numa cave escondida, por isso só temos de chegar até lá.
-E entretanto somos pobres. - Balbuciou a rapariga, amuada.
Preparava-se para fazer um discurso sobre a importância do dinheiro para a espécie humana, mas deteve-se. Estava a começar a escurecer naquele mundo ao qual haviam chegado há apenas algumas horas, e de um momento para o outro as pessoas foram desaparecendo das ruas.
-Venham, vamos montar um acampamento. É melhor que nos comecemos a habituar à diferença de horas. - Sugeriu Kuroi. - De qualquer modo, acordámos tão cedo que estou cheio de sono.
Makoto acenou com a cabeça, bocejando. Viajar entre dimensões deixara-o de rastos.

***

-Tens a certeza de que ficas bem aí fora? - Perguntou Ken'ichi, afastando o pano da entrada da tenda e metendo-se lá dentro. Kuroi assentiu.
-Está uma noite agradável e eu sou resistente, não te preocupes.
-Até amanhã! - Gritou Makoto de dentro da tenda.
-Até amanhã. - Respondeu o rapaz.
-Até. - Despediu-se Ken'ichi, fechando o fecho de correr do tecido.
Sozinho no exterior, Kuroi recostou-se na relva, olhando o céu e trincando o caule de uma ervinha, como tanto gostava de fazer. Comparada com a Lua que deixara para trás, aquela que se via a partir de Dreffel era muito maior e mais brilhante. As estrelas, ofuscadas pela sua luz, reluziam no fundo negro.
A fogueira crepitava timidamente ao seu lado.
Olhando em redor, esboçou um sorriso. Após três longos anos de espera, estava agora um passo mais perto de saber a verdade. Ia finalmente poder honrar a sua mãe. Mas naquele momento algo se sobrepôs a isso. Ao ver o céu nocturno que se estendia sobre si como um manto, ao respirar aquele ar que era tão puro e fresco, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava verdadeiramente em casa.

Posted by Seishin Hermy @ 10:06

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